O período de realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em novembro, é marcado por intensa expectativa entre estudantes brasileiros que buscam o acesso ao ensino superior. O que muitos não sabem é que o modelo atual do Enem, reformulado em 2004, foi inspirado em um dos exames mais rigorosos e simbólicos do mundo: o Suneung, vestibular da Coreia do Sul.
Suneung: oito horas de prova e um país em silêncio
Realizado uma vez por ano, o Suneung é o principal exame de acesso às universidades sul-coreanas. Com duração de cerca de oito horas, o teste é dividido em seções de coreano, matemática, inglês, ciências sociais, ciências da natureza, educação vocacional e uma língua estrangeira opcional.
Durante o dia da prova, o país entra em uma espécie de pausa coletiva. Bancos, comércios e serviços reduzem ou interrompem o funcionamento para evitar qualquer tipo de ruído que possa atrapalhar os candidatos. Em algumas regiões, até o tráfego é reorganizado para garantir pontualidade.
O silêncio nacional é ocasionalmente interrompido por sirenes de viaturas que auxiliam estudantes atrasados, reforçando a dimensão quase ritualística do exame.
Um processo cercado de sigilo e alta pressão
A elaboração do Suneung é envolta em rigor e confidencialidade. Cerca de 500 professores são isolados em local secreto semanas antes da prova, sem acesso ao mundo externo, garantindo segurança total do conteúdo.
Os resultados são divulgados oficialmente um mês depois, embora sistemas paralelos de estimativa permitam que candidatos avaliem rapidamente suas chances de ingresso nas universidades desejadas.
Universidade, status social e mercado de trabalho
Na Coreia do Sul, o desempenho no Suneung vai muito além da entrada na universidade. Ele influencia diretamente o status social, as oportunidades profissionais e até aspectos da vida pessoal, como relacionamentos.
O país possui alta taxa de escolarização superior, mas a disputa pelas universidades mais prestigiadas, conhecidas como SKY (Seoul, Korea e Yonsei), é extremamente acirrada. Menos de 2% dos estudantes chegam a essas instituições, consideradas equivalentes a universidades de elite global.
A conexão entre formação acadêmica e grandes conglomerados econômicos, como Samsung, Hyundai e LG, reforça ainda mais a pressão sobre os estudantes.
Preparação intensa e desigualdade educacional
A preparação para o Suneung envolve anos de estudo e forte dependência de cursos privados. Embora políticas públicas tenham tentado limitar a atuação dos cursinhos, o setor ainda exerce grande influência no desempenho dos estudantes.
Especialistas alertam que o alto custo da preparação contribui para desigualdades sociais e até para impactos demográficos, como a baixa taxa de natalidade, já que famílias tendem a investir mais em menos filhos devido ao peso financeiro da educação.
Impactos na saúde mental e críticas ao sistema
O modelo altamente competitivo do Suneung também levanta preocupações sobre saúde mental. A pressão constante, o isolamento e a carga de expectativas são associados a altos níveis de estresse entre jovens.
Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que o país apresenta índices elevados de estresse juvenil em comparação com outras nações industrializadas. Além disso, o suicídio figura entre as principais causas de morte entre jovens sul-coreanos, intensificando o debate sobre o sistema educacional.
Apesar de iniciativas governamentais para diversificar formas de ingresso e reduzir a dependência do exame, especialistas avaliam que o modelo ainda mantém forte centralidade na definição de oportunidades.
Um exame que simboliza um país
Mais do que uma prova, o Suneung é considerado um rito de passagem na Coreia do Sul. Em oito horas de avaliação, o exame concentra expectativas individuais, pressões familiares e disputas sociais, tornando-se um dos símbolos mais marcantes do sistema educacional do país e uma referência global sobre o impacto dos vestibulares na vida dos jovens.
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