Rebelião popular que surgiu no Maranhão no governo regencial
A Balaiada foi uma revolta popular que ocorreu na província do Maranhão entre os anos de 1831 a 1840 no governo regencial.
A sociedade maranhense da época era o espelho do modelo político-econômico implantado pela colonização portuguesa desde do Descobrimento do Brasil. Dessa forma, as injustiças sociais, o preconceito racial, o capitalismo selvagem e toda sorte de mazelas ficaram enraizadas na sociedade brasileira.
As revoltas regenciais são exatamente a prova da reação da classe social desfavorecida contra o monopólio político e econômico causador desses problemas. Claramente, pode-se exemplificar a revolta regencial da Cabanagem que ocorreu na província do Pará e mobilizou a população pobre a lutar contra o governo central estabelecido pela Regência.
De forma semelhante, a Balaiada mobilizou as camadas populares que viviam em extrema pobreza na província do Maranhão. Aderiram à revolta os escravos, os vaqueiros, os mestiços, os pequenos agricultores rurais, os artesãos, os fabricantes de balaios, etc.
Inclusive, os integrantes da Balaiada passaram a ser chamados de os “balaios” porque um dos seus participantes trabalhava justamente na fabricação de balaios ou cestos. É importante frisar que dois principais fatores desencadearam a Balaiada. O primeiro diz respeito a questão social em que vivia a maior parte da população maranhense, conforme já dito.
O outro fator é de ordem política, pois havia nesse cenário grupos com objetivos opostos e que ameaçavam a unidade nacional. E foi justamente a divisão dos grupos políticos da província do Maranhão uma das molas propulsoras para incentivar a participação popular a lutar contra a aristocracia agrária que dominava a região.
Juntamente com as demais manifestações de lutas e revoltas sociais ocorridas ao longo da história do Brasil, a Balaiada deixou registrado a importância da bravura dessas camadas populares na luta contra a opressão do colonialismo português. Apesar de não ter muito bem organizado e estruturado um esquema militar e político durante os anos de revolta.
Balaiada: crise política e econômica
A principal fonte de riqueza da aristocracia agrária da província do Maranhão era o cultivo do algodão e sua exportação. Utilizava-se nas lavouras a mão de obra escrava e um sistema monocultor chamado de plantation.
Entretanto, houve uma significativa redução lucros da exportação algodoeira no mercado internacional. Isso devido à forte concorrência com os Estados Unidos.
Dessa forma, implicou-se no aumento dos preços dos tecidos e dos alimentos para o mercado nacional. O comércio maranhense era dominado pelos portugueses que vendiam esses por altos preços. E, por sua vez, a população pobre não podia adquirir em razão das dificuldades financeiras em que se arrastava a província.
Com o agravamento da pobreza, aos poucos ocorreu a rejeição do povo aos portugueses. Outros fatores da grave crise econômica foram as perdas das terras dos pequenos agricultores rurais para os grandes latifundiários. O que levou os escravos a fugirem para os quilombos para se protegerem da fome.
Esse episódio foi semelhante ao período do Brasil Colônia, quando formou-se o maior e mais famoso quilombo que já existiu no país: Quilombo dos Palmares.
Bem-ti-vis e conservadores
Na província do Maranhão havia o conflito de dois grupos políticos – os liberais e os conservadores.
Os liberais eram conhecidos como “bem-ti-vis” e defendiam uma organização política fundamentada no ideias do republicanismo. Inclusive, para disseminar para todos suas ideias fundaram o jornal “Bem-te-vi”.
Já os conservadores dominavam o “pleito eleitoral” maranhense porque recebiam do governo provincial total apoio. Eles ainda perseguiam com veemência os bem-ti-vis devido as contrariedades políticas.
Um detalhe importante acerca dos conflitos da Balaiada é que inicialmente os liberais apoiaram a revolta. Ademais, eles forneceram armas para os revoltos.
Todavia, o objetivo dos liberais foi usar a população empobrecida, que estava com armas em punho, como manobra contra os conservadores. E quando os interesses não foram mais conciliantes, deixaram a Balaiada para trás.
Lei dos prefeitos
Outra questão que aprofundou ainda mais a revolta popular foi a decisão política arbitrária do presidente da província do Maranhão.
O decreto da “Lei dos prefeitos” autorizou o presidente maranhense a realizar a nomeação de prefeitos. Essa medida provocou ainda mais os conflitos entre os grupos políticos, principalmente os liberais que se sentiram desprivilegiados.
O estopim da Balaiada
A população maranhense já estava no clima de uma revolta e bastava uma iniciativa para eclodir de vez um estopim.

O Maranhão foi o primeiro local onde surgiu a Balaiada. (Foto: Wikipédia)
Então, o irmão do vaqueiro Raimundo Gomes foi acusado de assassinato pelo subprefeito da Vila de Manga, José Egito, que em seguida deu ordens da sua prisão.
No dia 13 de dezembro de 1838, Raimundo Gomes decidiu se vingar e com a ajuda de nove companheiros invadiram a cadeia pública da província para libertar o rapaz.
O grupo obteve sucesso e ainda conseguiram ganhar o apoio de vinte e dois soldados provinciais, que estavam insatisfeitos com o recrutamento forçado.
Líderes
A princípio, o vaqueiro Raimundo Gomes passou a liderar um significativos número de homens armados. Ele conseguiu o apoio de militares e a posse de armas e munições da cadeia pública.
O fabricante de balaios Manuel Francisco dos Anjos Ferreira também se juntou ao bando, depois que sua filha foi estuprada por um soldado. e não houve nenhuma punição por parte do governo provincial.
Em seguida, o negro Cosme Bento das Chagas destacou-se à frente da Balaiada e chegou a comandar um quilombo com 3000 negros fugidos.
Esse três homens oriundos das camadas populares tornaram-se os principais líderes da Balaiada e conseguiram mobilizar aproximadamente 11 homens na revolta que se estendeu para as províncias do Piauí e Ceará.
Governo Provisório
Em agosto 1839, os balaios dominavam a vila de Caxias e estabeleceram um “Governo Provisório”. Anteriormente, o grupo percorria várias vilas provinciais e fazendas libertando os negros escravos.

Na cidade de Caxias foi erguido em memorial em homenagem a revolta. (Foto: Wikipédia)
Não havia um projeto político concreto, conforme já dito, mas os balaios radicalizaram nas intenções políticas. Afinal, desejavam o fim da Guarda Nacional e a expulsão dos colonizadores portugueses. Mas, obviamente, a reação do governo provincial seria contrária.
Fim da Balaiada e o barão de Caxias
O governo central enviou à vila de Caxias tropas imperais. O coronel Luís Alves de Lima e Silva foi o responsável pela ação militar que contou com 8000 soldados no dia 7 de fevereiro de 1840.
Depois de uma sangrenta batalha, em 1841, a Balaiada chegou ao fim. Os balaios tiveram um saldo negativo de 8 mil vaqueiros e escravos mortos.
A aplicação das penalidades foram diferentes, pois Dom Pedro II deu o perdão da anistia para alguns e outros foram executados, como o negro Cosme Bento que foi levado à forca.
O coronel Luís Alves de Lima e Silva foi horando pelo governo central com o título de barão de Caxias, graças ao êxito da sua ação militar na Balaiada.