m dos maiores movimentos populares do Brasil
Os Caras Pintadas foi um movimento que aconteceu no decorrer do ano de 1992. Esse evento foi organizado pelo movimento estudantil brasileiro que tinha como motivação principal, conseguir o impeachment do presidente do Brasil, Fernando Affonso Collor de Mello.

Jovens e estudantes se uniram em manifestações públicas, no processo do impeachment de Collor. (Foto: Flickr)
Caras Pintadas no Governo Collor
Fernando Affonso Collor de Mello chegou ao poder no ano de 1990, debaixo de várias críticas por causa das interferências que as grandes organizações empresariais demonstraram exercer durante a campanha eleitoral para a presidência da República.
Diversas fontes políticas, que eram comandadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e o seu candidato que perdeu as eleições para Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva, questionaram o resultado eleitoral, alegando que a vitória do opositor foi consequência da manipulação exercida sobre a opinião pública.
No decorrer do governo Collor, o então presidente adotou várias medidas de caráter anti-inflacionário, a exemplo de: aumento de tarifas públicas, criação de mais de um Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mudança de moeda, redução de incentivos, entre outros. Todas essas medidas ficaram conhecidas como “Plano Collor”.
A atitude que gerou muita repercussão e deixou a população bastante incomodada, sendo o estopim para o movimento dos caras pintadas, foi o empréstimo compulsório ao governo, de todo valor acima de 50.000 cruzeiros que fosse mantido na conta poupança.
Esse ato ficou conhecido como confisco da poupança, mesmo sem ter características reais de um confisco, pois o dinheiro seria, teoricamente devolvido.
Cronologia dos Acontecimentos em 1992
Início de Maio
O irmão do presidente, Pedro Affonso Collor de Mello, mostrou uma série de documentos que revelavam a corrupção do governo Collor, para uma revista de grande circulação nacional, a Revista Veja. O periódico então, divulgou todo o conteúdo dos documentos que implicava nos crimes de enriquecimento ilícito, evasão de divisas e tráfico de influência.
Todo esse dossiê era muito comprometedor e podia dificultar a permanência de Fernando Collor na presidência da República. O povo brasileiro acompanhava indignado toda a onda de acusações que Pedro Collor fazia contra o seu irmão presidente e também a Paulo César Siqueira Cavalcante Farias (PC Farias).
Importantes entidades civis do Brasil começaram o “Movimento pela Ética na Política”, mais um ponto de partida para o surgimento dos caras pintadas. O escândalo de PC Farias se tornou a notícia principal do Brasil por um bom tempo. As entidades que participaram foram:
• Associação Brasileira de Imprensa (ABI)
• Central Única do Trabalhadores (CUT)
• Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
• Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)
• União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES)
• União Nacional dos Estudantes (UNE)
29 de Maio
O próximo passo para o movimento dos caras pintadas, foi a primeira reunião com a presença de uma grande massa de estudantes. Essa assembleia chamou bastante atenção da mídia por causa da grande quantidade de pessoas que participaram. Ficaram marcados, a forte rejeição ao presidente e principalmente, o forte engajamento político dos jovens.
Os jovens se inspiraram na minissérie produzida e exibida pela Rede Globo de Televisão, Anos Rebeldes, do autor Gilberto Braga. A obra da dramaturgia abordava o papel dos estudantes contra a Ditadura Militar no Brasil e na primeira passeata, eles utilizaram um cartaz com a frase “Anos Rebeldes, Próximo Capítulo”.
1º de Junho
Foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), o acusador Pedro Collor foi a primeira pessoa a ser ouvida. No decorrer das investigações, as acusações foram sendo fundamentadas de maneira significativa.
A postura que o presidente Fernando Collor apresentou durante toda a campanha presidencial, uma imagem de “honesto” e “caçador de marajás” se dissipou e o que ficou exposto foi a imagem de um “confiscador” e “criminoso” diante de toda o povo brasileiro.
Agosto
Depois do recesso parlamentar, o Congresso Nacional retomou a CPI de investigação do presidente Fernando Collor. No decorrer de todo o mês de agosto aconteceram manifestações de repulsa ao presidente, essa insatisfação foi se intensificando bastante com o passar do tempo e a ação dos caras pintadas estreava com todo força.
• 11 de agosto – aconteceu uma passeata que reuniu uma média de 10 mil pessoas na frente do Museu de Arte de São Paulo (MASP). As assembleias ficaram marcadas por causa da diversidade política, da irreverência e do apartidarismo. Havia uma ameaça real de abandono do viés político, os partidos foram ficando de lado e assim foram surgindo as primeiras pessoas de caras pintadas.
• 13 de agosto – para rebater as acusações, o presidente Collor se pronunciou em rede nacional de televisão e pediu o apoio da nação brasileira. Ele convocou o povo para se vestir com as cores da bandeira do Brasil e ir para as ruas no domingo (16).
• 16 de agosto – os jovens tomaram as ruas das capitais brasileiras, com roupas negras e os rostos pintados de preto, como sinal de luto contra a corrupção. O movimento dos “caras pintadas” foi noticiado pela imprensa, como referência uma revolução militar homônima. Esse dia ficou conhecido como o “domingo negro”. Mais de 30 mil pessoas foram às ruas, na cidade do Rio de Janeiro – RJ.
• 25 de agosto – o Movimento pela Ética na Política precisava de um empenho maior do povo nos protestos contra a corrupção, para conseguir pressionar o Congresso Nacional em favor do impeachment do presidente Collor. As manifestações tomaram grandes proporções, conforme se aproximava a votação do relatório final da CPI. Nesse dia, pela manhã, aproximadamente 400 mil jovens tomaram a região do Vale do Anhangabaú, em São Paulo – SP. Cerca de 100 mil estudantes tomaram Recife – PE e outros 80 mil tomaram Salvador – BA. Em todas as capitais brasileiras ocorreram protestos a favor do impeachment.
• 26 de agosto – Enquanto o relatório estava sendo votado pelo Congresso, aproximadamente 60 mil pessoas protestaram contra Fernando Collor, em Brasília. Esse relatório foi aprovado com 16 votos a favor e 05 votos contra e o pedido de impeachment começou a ser elaborado pela Câmara dos Deputados.
18 de Setembro
Com a aproximação da votação de abertura do processo de impeachment, milhares de jovens voltaram a ocupar as ruas do país. Na cidade de São Paulo, aproximadamente 750 mil pessoas ficaram nas ruas até as 21 horas e o movimento social começou a dominar toda a situação e dar um novo rumo ao país.
29 de Setembro
A Câmara dos Deputados aprovou o processo de impeachment, com: 448 votos a favor, 38 contra, 23 ausentes e 01 abstenção. A essa altura, milhões de pessoas de todas as idades estavam protestando, nos quatro cantos do país, com os rostos pintados de verde e amarelo, a favor do impeachment do presidente Fernando Collor. Foi o auge do movimento dos caras pintadas.
Renúncia do Presidente Collor
Em 29 de dezembro de 1992, Fernando Collor renunciou ao cargo presidente da República para conseguir conservar os seus direitos políticos. Mesmo com a renúncia, o Congresso Nacional deu continuidade ao julgamento sem provocar alarde para evitar um desgaste maior, já que havia uma mobilização consistente da sociedade.
Com isso, depois de atingir o objetivo, o movimento dos caras pintadas foi extinto, já que eles queriam e lutaram apenas pela queda do presidente.