Movimento armado dos marinheiros em 1910
A Revolta da Chibata foi uma rebelião naval arquitetada pela marujada insatisfeita com os constantes castigos físicos de chibatadas na Marinha do Brasil.
Essa rebelião ocorreu no contexto histórico e social da República Oligárquica (1894 a 1930) no início do século XX, em 1910, entre os dias 22 e 27 de novembro na capital do país - Rio de Janeiro.
As chibatadas significavam a falta de dignidade e humilhações aos marinheiros brasileiros. Ainda mais que trabalhavam em um estado de “semi-escravidão”, porque eram submetidos a uma carga horária de trabalho exaustiva e a salários baixos.
Outra questão que provocou ainda mais os marujos foram as compras dos modernos encouraçados, importados da Inglaterra. Só existiam apenas quatro tipos dessas embarcações navais no mundo.
Então, o governo brasileiro - depois das aquisições com o governo inglês - nomeou-as de encouraçado São Paulo e encouraçado Minas Gerais, homenageando a política do café-com-leite.
Diante disso, para manusear os novos encouraçados os marinheiros precisaram de treinamento com os marinheiros da Inglaterra.
E durante a convivência a marujada das águas brasileiras perceberam o tratamento mais humano que recebiam os marinheiros ingleses, e o quanto eram politizados e organizados.
Consequentemente, os marinheiros brasileiros tomaram como modelo a organização inglesa e pouco a pouco foram se mobilizando rumo a um movimento armado, com o objetivo de provocar mudanças significativas na Marinha do Brasil.
O presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca (1910-1914), recém empossado, precisou enfrentar no primeiro ano do seu governo um sangrento motim naval.
Estopim da Revolta da Chibata
Costumeiramente, os marinheiros eram advertidos pelos oficiais da Marinha brasileira com o uso de chibatas. Esse tipo de conduta da instituição foi herdada da Marinha de Portugal desde a época da colonização, que usava-as como um método de artigos de guerra.
Ainda que houvesse falhas de soldados de altas patentes, os maus tratos e as chibatadas eram sempre direcionadas aos postos mais baixos da hierarquia naval. Essa era composta pelos marinheiros negros, ex-escravos e de famílias pobres.

Os marinheiros brasileiros eram, majoritariamente, homens negros, ex-escravos e de família pobre. (Foto: Wikipédia)
Por motivo de embriaguez e briga com um colega, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes recebeu severa punição.
Em razão disso, na manhã do dia 22 de novembro, Marcelino foi conduzido ao convés do encouraçado Minas Gerais, onde o amarraram em um mastro e ali recebeu 250 chibatadas.
O momento do castigo ainda foi “ritualizado” pelos oficiais da Marinha do Brasil. Visto que, quando começaram os açoites, os oficiais começaram a tocar os tambores a fim de abafar os gritos de dor e sofrimento do marinheiro.
Depois do terrível evento, a marujada ficou imbuída do espírito de revolta em presenciar tamanha calamidade com o companheiro de mar.
Revolta da chibata e o acordo forjado
Na noite do mesmo dia das chibatadas no marinheiro Marcelino Rodrigues, às 22h, os tripulantes do encouraçado Minas Gerais deram início a Revolta da Chibata.
O líder da revolta foi o Almirante João Cândido Felisberto, apelidado de “Almirante negro”.
O motim naval prosseguiu noite a dentro e ganhou força com a participação dos demais marinheiros dos outros navios oficiais da Marinha do Brasil - os encouraçados São Paulo, Bahia e Deodoro.
Houve muito derramamento de sangue nos seis dias da agitação militar. Uma vez que os marinheiros entraram em combate com os oficiais para tomar o comando dos encouraçados.
Dessa maneira, entraram em luta corpo a corpo e usaram os instrumentos de guerra que dispunham - espadas, baionetas e machadinhas.
Depois que todos os oficiais se renderam e saíram dos encouraçados, a marujada deu prosseguimento às reivindicações.
Organizadamente os marujos elaboraram uma declaração pública com as reivindicações exigidas pela categoria profissional. Possivelmente, o documento foi escrito pelo marinheiro Adalberto Ferreira Ribas.
A declaração foi endereçada ao gabinete do presidente da República e ao Ministério da Guerra com as seguintes reivindicações:
• fim das chibatadas;
• aumento de salário;
• substituição dos oficiais sem perfil para comando;
• investimento na educação dos marujos;
• melhoria nas condições de alimentação;
• melhoria nas condições de trabalho;
• diminuição da carga horária de trabalho;
• anistia para os participantes da revolta.
O documento foi recebido e analisado pelos parlamentares no Congresso brasileiro. Depois de muito debatido, poucos avanços políticos ocorreram em defesa dos marinheiros.
A marujada não ficou apenas na negociação formal e burocrática com o governo. A fim de demonstrar um enfrentamento mais ostensivo, deram bombardeios em direção à cidade do Rio de Janeiro.
E caso não fossem atendidas as reivindicações, os tripulantes iriam bombardear várias partes da cidades. Em vista disso, pressionado por alguns parlamentares que saíram em defesa das reivindicações e da pressão dos amotinados, o presidente Hermes da Fonseca aceitou fazer acordo com os marujos revoltosos.
Ficou então estabelecido que o governo brasileiro concederia anistia a todos os participantes da Revolta da Chibata, além de extinguir os castigos físicos na Marinha do Brasil.
Com isso, os marinheiros decidiram entregar as armas e o comando dos encouraçados, colocando fim ao motim.
Entretanto, depois de dois dias da rendição dos amotinados, descobriu-se que era um acordo forjado do governo brasileiro. Isso foi explicado pelas atitudes do presidente Hermes da Fonseca em oficializar “estado de sítio” e decretar a expulsão, prisão e morte dos marinheiros da Marinha do Brasil.
O Almirante Negro, o líder dos revoltosos, foi um dos mais penalizados. Isso porque as tropas do governo o trataram com extrema violência no presídio em Ilha das Cobras, no litoral de São Paulo. Uma delas era jogar cal sobre o corpo do marinheiro.

A liberdade do Almirante Negro foi manchete de primeira página no jornal Gazeta de Notícias. (Foto: Wikipédia)
“O navegante negro” música de João Bosco e Aldir Blanc
O Almirante João Cândido Felisberto foi homenageado na música “Mestre sala dos mares” de João Bosco e Aldir Blanc como “o navegante negro”.
O líder da Revolta da Chibata entra para a História do Brasil como um bravo lutador que enfrentou uma estrutura de desigualdade social e racial estabelecida na sociedade e no interior da Marinha do Brasil.
Leia um trecho da composição que faz jus à homenagem:
Há muito tempo nas águas da GuanabaraO dragão no mar reapareceuNa figura de um bravo feiticeiroA quem a história não esqueceuConhecido como navegante negroTinha a dignidade de um mestre-salaE ao acenar pelo mar na alegria das regatasFoi saudado no porto pelas mocinhas francesasJovens polacas e por batalhões de mulatasRubras cascatas jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas