Movimento literário baseado no ser humano
A linguagem do humanismo era utilizada no movimento literário que enfatizava traços do comportamento humano. Desejos, valores morais, características profundas e esfera psicológica eram temas presentes nas obras humanistas. Proveniente da filosofia italiana, o humanismo retratava a sociedade por meio do antropocentrismo, pois o homem era o centro do mundo.
Na literatura portuguesa, a linguagem do humanismo veio em forma de prosa, poesia palaciana, peças teatrais e outras obras.
A linguagem do humanismo teve início após o teocentrismo entrar em decadência. Autores e intelectuais da época expuseram a vontade de construir uma sociedade que exaltasse as condições humanas como os desejos, psicologia e sonhos. Para isso, utilizaram da racionalidade e diminuíram o teor religioso das artes e literatura.

O antropocentrismo era o foco que enfatizava a linguagem do humanismo. (Foto: Wikipédia)
A linguagem do humanismo e a história
O trovadorismo, primeira escola literária portuguesa, perdeu sua força no século XIV quando a poesia deu lugar à prosa. Crônica era um gênero dominante na fase que ligava a Idade Média à Idade Moderna, bem como peças de teatro e novelas de cavalaria.
Depois do classicismo valorizador da estética na antiguidade, a linguagem do humanismo se firmou na inspiração do racionalismo, sempre para enfatizar a o ser humano. Comportamento psicológico, amor irreal, desejos, sensualidade, personalidade e outras vertentes humanas eram fatores valorizados nas obras.
Dois precursores da linguagem do humanismo na literatura portuguesa se chamavam Gil Vicente e Fernão Lopes. Em meio às sátiras e crônicas, a sociedade da época, composta de nobres e monarcas, era exposta por meio de investigações, relatos históricos pautados na observação e ao mesmo tempo em encenações de peças de teatro com toques de drama e comédia, tidas como algo inovador.
Fernão Lopes, escritor português de prosa de maior renome da literatura medieval e também pioneiro da historiografia, foi quem expressou a linguagem do humanismo tirando como base seu próprio estudo em relação às classes. A história e a literatura estavam sempre presentes, enquanto focava em ser um cronista com perfil próximo do que seria um jornalista tradicional do século XXI.
Sua importância era tamanha que de plebeu foi nomeado como parte da nobreza pela monarquia.
A linguagem do humanismo também foi marcada pela existência de um posicionamento altamente crítico em relação à própria história da sociedade. Como costume, os autores humanistas faziam relatos verídicos, com interpretação fácil e crível para explicar de forma detalhada, com a base na racionalidade. O pensamento humano era exacerbado e tinha uma grande voz.
As crônicas faziam a descrição da monarquia portuguesa e também da nobreza. Era o tipo de trabalho artístico responsável por não misturar relações entre parentes e assim preservar a identidade familiar das dinastias. Na época era comum os casamentos entre parentes distantes, por exemplo, e este fato conseguia ser evitado por meio de desdobramentos da linguagem do humanismo.
O racionalismo era muito presente e notável nas crônicas históricas, pois os autores, principalmente Fernão Lopes, agiam de forma inovadora dando espaço a todas as pessoas. Bastava ser humano para ter sua história observada e analisada. Os reis e rainhas não eram os únicos exaltados.
A linguagem do humanismo conseguia ter eloquência e boa oralidade, mesmo com viés mais erudito. Por isso era considerada uma vertente que envolvia a sociedade da época.
Porém, nem só de história vivia a linguagem do humanismo. Comédias, tragédias e farsas eram gêneros explorados cheios de elementos do misticismo (atores como ciganos, fadas e demônios eram comuns) e um pouco de religiosidade, afinal as hagiografias que apresentavam a história de santos eram presentes dado o fato de que boa parte das pessoas tinha passado religioso medieval, embora o teocentrismo estivesse em estado de decadência.
Gil Vicente, maior nome em dramaturgia e teatro de Portugal, atuava, escrevia e era poeta. Fazia trabalhos não só em português como também em espanhol e era um dos responsáveis pelo entretenimento da Corte, pois criava peças de teatro que eram reproduzidas nos palácios, além de ser integrante das poesias palacianas.
Tirando proveito da sociedade que agora tinha se livrado dos teores mais rígidos e das regras mais duras, por causa do renascimento que trouxe um lado mais desenvolvedor do pensar humano, Gil Vicente se apossou da oportunidade de influenciar a sociedade portuguesa com cultura popular.
Perfis psicológicos, em meio a comicidade, sátiras e alegorias, e muitas críticas aos costumes, constituíam as peças de teatro que Gil Vicente e outros autores humanistas escreviam e muitas vezes encenavam sozinhos, a frente de uma plateia imensa de nobres e reis os assistindo.
Marinheiros e outros trabalhadores estavam nas obras de teatro, exatamente para destacar a importância de toda e qualquer figura humana. A linguagem do humanismo podia ser séria e direta, simples e espontânea, detalhista e cotidiana.
A importância da Poesia Palaciana
A poesia palaciana era tida como essência que norteava a linguagem do humanismo. Feita por nobres para nobres e fidalgos portugueses, falava do amor de forma sensual e sem tanta idealização da mulher. Eram poesias musicais, porém não eram cantadas como na época do trovadorismo. Eram declamadas ou lidas com emoção, em meio a métricas e ritmos próprios.
Vamos analisar duas poesias palacianas:
Que meus olhos partays,
Em qualquer parte que estays,
Em meu coração ficays,
E nele vos converteys.
Este é o vosso lugar,
Em que may eta vos vejo,
Porque não quer meu desejo,
Que vos de passeys mudar,
Por isso que partays,
Em qualquer parte que estays,
Em meu coração ficays,
Pois nele se converteys.
(Rui Barbosa)
A poesia acima retrata uma confissão de amor, em que o autor relata intimamente o poder da amada em sua vida. Mesmo com a ausência, ela possui seu coração. A linguagem era considerada simples e a grafia parecida com a atual. Nota-se a diferença do emprego do y que hoje é comumente trocado pelo i.
Senhora, partem tão tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes,
Outros nenhuns por ninguém.
(João Ruiz de Castelo Branco)
Nessa outra passagem é possível notar características do cancioneiro geral. O autor expressa uma linguagem humanista que enfatiza o amor, a tristeza e a melancolia por meio de uma cantiga.
Autores e outras obras humanistas
• William Shakespeare: "Hamlet", 'Romeu e Julieta".
• Miguel de Cervantes: "O engenhoso fidalgo", "Dom Quixote de La Mancha", "Novelas Exemplares".
• Luís de Camões: "Os Lusíadas".