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A linguagem do Naturalismo

Postado por Fernanda Luna em 16/08/2019

Contexto histórico 


A linguagem do Naturalismo surgiu no século XIX, em meio a vários fatores de transformação social. Entre eles estavam o fim do Segundo Reinado de Dom Pedro II, abolição da escravatura e a Proclamação da República

O capitalismo começava a entrar em ascensão e o aumento da mão de obra era crescente cada vez mais, o que exigia mais maquinário e mais pessoas trabalhando. Esse fato teria desencadeado a Segunda Revolução Industrial

Outra influência que a linguagem do Naturalismo sofreu foi sobre a dualidade do homem. O que o ser humano é de fato? Um ser pensante racional ou um animal perverso e incontrolável? A natureza humana é parte de cada ser ou seria ela formada por influência do meio?

Refletindo sobre esses e outros aspectos da humanidade, a linguagem naturalista foi bem colocada por escritores como Aluísio de Azevedo. Ele escreveu entre outros livros O Mulato, marco inicial para essa escola literária no Brasil.

 

Base da linguagem do Naturalismo


O Naturalismo é uma escola literária que radicalizou o Realismo e colocou de lado todos os conceitos do Romantismo, principalmente a subjetividade. Os autores do Naturalismo não transferem sentimento nem opiniões, também por esse motivo a linguagem do Naturalismo é tão direta e real. 

Durante o século XIX, a razão e a ciência se pautavam para explicar e criticar o comportamento humano. As análises eram objetivas e aprofundadas, e destrinchavam a moral e o psicológico das pessoas. 

Ao contrário do Realismo que analisava a sociedade da mesma forma, mas com foco na burguesia, o Naturalismo fazia essa análise com a classe operária

O Darwinismo e o positivismo foram as correntes que influenciaram os autores literários durante a ascensão do Naturalismo, fato que contribuiu diretamente para a linguagem do naturalismo nas obras. 

O Darwinismo põe o homem como uma criatura com defeitos, fraquezas e instintos animais, tirando assim ele da posição de escolhido de Deus que caminha para uma vida santa. 

Com essa influência os escritores expõem a sexualidade e os desejos de forma muito explicita e direta nos livros. 

Principais características da linguagem naturalista 


Com propósito de fazer críticas severas, a linguagem naturalista não admira o humano, mas sim coloca em evidência suas perversões e crueldades com expressões populares.  É normal encontrar em livros de escritores naturalistas expressões como “se contorce como um verme”, “come como um cavalo” ou “se escondeu como um rato”. 

Não existe sutileza, a linguagem naturalista é até muitas vezes chula. A literatura não era imoral, mas sim amoral. Pode ser definida por:

•    Observação da realidade
•    Retrato objetivo da sociedade
•    Evolucionismo, Cientificismo e Positivismo
•    Forte descrição de ambientes e personagens
•    Problemas humanos e sociais: patologias psíquicas e físicas

Livros


Baseados nos estudos científicos, os autores naturalistas escreveram obras que retratam o comportamento humano e seus instintos como: fúria, traição e ganancia, além da pobreza social, doenças, entre outras mazelas.

Os livros mais conhecidos do período são: O Cortiço, Casa de Pensão e O Mulato, de Aluísio de Azevedo. Além deles, estão Luzia-Homem de Domingos Olímpio, A Carne de Júlio Ribeiro e Bom Crioulo de Adolfo Caminha.

Capa do livro O cortiço, escrito por Aluísio de Azevedo (Foto:Wikimedia Commons)

Em O cortiço, Aluísio de Azevedo abrange teorias científicas para montar os personagens e traçar os perfis. Até o local que o autor escolheu para retratar a sociedade, foi baseado nesse princípio, já que um cortiço reúne grande número de pessoas com baixo poder aquisitivo, vivendo em um mesmo ambiente. 

O livro contra história de vários personagens, entre eles, João Romão. Imigrante português, pobre, ele só pensava em ficar rico. Para isso, usou Bertoleza, escrava fugitiva que tinha um pequeno restaurante e sonhava em ser alforriada. 

Bertoleza pede então que Romão compre sua alforria, com dinheiro de muito trabalho. Ele engana a moça comprando uma alforria falsa, barata, e fica com o restante do dinheiro. Com esse dinheiro, ele constrói o cortiço, na região que morava. 

Quando percebe que caiu no golpe, Bertoleza que não queria ser escravizada para sempre, se suicida. 

Jony é outro morador do cortiço, que tem inimizade com seu vizinho, Miranda. Também imigrante, Jony ficou rico por causa de um casamento promissor. Mesmo sem gostar do vizinho, Romão pede a mão da filha dele, querendo entrar para alta sociedade.

Interesseiro e traidor, Romão tinha um falso romance com Bertoleza, e tenta se livrar dela procurando seu proprietário. 

Outros personagens compõem a história, e vão dando vida aos fundamentos científicos estudados pelo autor. Esposa do Miranda, Dona Estela se envolve com um rapaz chamado Henrique, um estudante de medicina. 

Trecho do livro
 E não podia deixar de pensar no demônio da negra, porque a maldita ali estava perto, a rondá-lo, ameaçadora e sombria. Ali estava como documento vivo de suas misérias, já passadas mas ainda palpitantes. Bertoleza devia ser esmagada, devia ser suprimida, porque era tudo de mal que havia na vida dele. Seria um crime conservá-la ao seu lado! Ela era o torpe do balcão da primitiva bodega.
Mais um trecho:
“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.

Autores que se destacaram


Principais autores do Brasil

•    Aluísio de Azevedo (1857-1913)
•    Raul Pompeia (1863-1895)
•    Adolfo Ferreira Caminha (1867-1897)
•    Júlio Ribeiro

Principais autores em Portugal

•    Francisco Teixeira de Queirós (1848-1919)
•    Júlio Lourenço Pinto (1842-1907)
•    Abel Botelho (1854-1917)

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