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A Linguagem do Trovadorismo

Postado por Esther Santana em 22/08/2019 e atualizado pela última vez em 20/07/2020

Conheça as características do primeiro movimento literário da língua portuguesa


A linguagem do Trovadorismo era seguida de melodia. A expressão literária surgiu no período feudal, mais precisamente no século XI. Existem quatro proposições para a origem do movimento.

Há a tese arábica em que a cultura árabe é considerada como a que primeiro desenvolveu o TrovadorismoTambém existe a tese folclórica, nessa teoria, o Trovadorismo foi criado pelo povo. 

Tem a crença médio latinista. De acordo com ela, a trova tem origem na literatura latina produzida na Idade Média. E a última, a afirmativa litúrgica em que o Trovadorismo é produto da poesia litúrgica-cristã produzida no mesmo período. 

O que se pode afirmar é que o Trovadorismo se desenvolveu na Europa medieval, entre os séculos XI e XIV, no sul da França, e a partir dele surgiram outras manifestações literárias. Em Portugal, o Trovadorismo surgiu no final do século XII, ficando popular na Península Ibérica depois da produção de Cantiga da Ribeirinha, de João Soares de Paiva.

A linguagem do Trovadorismo era literária e criava diálogos. Diferentes tipos de textos tratavam de assuntos como o amor, a amizade, a indiferença, a rejeição, divisão de classes. As cantigas são os principais registros do período. 


As cantigas trovadorescas tinham o intuito de retratar a vida nas cortes portuguesas. ( Foto: Wikipedia)


O Trovadorismo


O Trovadorismo foi uma escola literária que surgiu na Idade Média, no século XI. A Idade Média foi um período da Europa que começou no século X, com a queda do Império Romano e terminou no século XV, sendo substituída pela Idade Moderna. Compreendendo dez séculos, a Idade Medieval se dividiu em Alta Idade Média e Baixa Idade Média, e foi justamente nessa época, quando a Idade Média começou a apresentar sinais de decadência, que surgiu o Trovadorismo. 


Algumas características da Idade Média foram marcantes para entender o que foi o esse movimento, tais como:


• O feudalismo – sistema socioeconômico que se baseava na propriedade de terra e nas relações de suserania e vassalagem.
• A monarquia – O rei ou rainha exerce a função de chefe de Estado.
• Abertura do comércio.
• As guerras santas, também conhecidas como “as cruzadas”, invasões legitimadas pelo Estado ao território da Palestina.
• A Epidemia da peste, que matou mais de 100 milhões de pessoas.
• O controle socioeconômico da Igreja Católica. Naquele período, além de atuarem como liderança espiritual, o catolicismo controlava áreas da saúde, educação, comportamento, cultura. 


Com exceção do monarca, que era soberano, todas as outras camadas sociais deviam obediência aos princípios da igreja. Com os movimentos culturais e literários não seria diferente, a linguagem do Trovadorismo também foi fortemente influenciada pela religião. 


A Linguagem do Trovadorismo


A linguagem do Trovadorismo foi elaborada para ser acompanhada com melodia. As poesias vinham acompanhadas de instrumentos musicais como pandeiros, gaitas, harpas, alaúdes. Como a tradição oral ainda era muito comum, as cantigas eram declamadas a céu aberto.

Os artistas desse movimento eram divididos e classificados de acordo com a classe social a que pertenciam. O “trovador” era o músico que pertencia a alta nobreza. O “segrel”, que também era músico e cantor, também pertencia a nobreza, mas era um nobre que estava em decadência.

O “jogral” era responsável por escrever e interpretar as canções. O “menestrel” era um cantor que pertencia a classe baixa, e a “soldadeira” era uma mulher que fazia companhia para o jogral. 

Cantigas do Trovadorismo


As cantigas constituem a linguagem do Trovadorismo. Elas podem ser:

Cantigas de amor – Nessas versões, o eu lírico era masculino e ele escrevia para a pessoa amada. Geralmente, era uma mulher que estava distante da sua realidade. Vários autores faziam comparações entre a suserania e vassalagem, características da Idade Média com esse tipo de amor impossível. O nível social sempre deixava o vassalo (homem) abaixo da suserana (mulher). As cantigas de amor podem ser:

• De Meestria: sem refrão, estribilho ou repetições.
• De Tense: um diálogo entre dois homens que disputam por uma dama.
• De Pastorela: Amor entre plebeus.
• De Plang: Uma cantiga de lamentação.

Cantigas de amigo – A cantiga de amizade também falava sobre o amor. A diferença é que o eu lírico era mulher. As mulheres não escreviam de fato, mas os trovadores faziam isso porque a maioria das canções escritas era para mulheres. Nessas cantigas, a masculinidade era ressaltada. O “amigo” era na verdade o namorado, ou um amante, ou falecido. Um exemplo de cantiga de amigo é a do rei D. Dinis de Portugal, “Ai flores, ai flores do verde pino”. Observe o trecho abaixo:

“Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs conmigo?
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado?
Ai Deus, e u é?”

A linguagem do Trovadorismo falava sobre amor, mas também criticava quando preciso. As cantigas de escárnio e maldizer eram responsáveis por isso.

Cantigas de escárnio – cantigas que tinham como objetivo fazer sátira de alguém ou alguma situação. Nas cantigas de escárnio era comum o duplo sentido e a indireta. O autor era irônico, mas não revelava o receptor da sua mensagem. As cantigas de escárnio também tinham muitos trocadilhos.

Cantigas de maldizer – É muito provável que entre as cantigas, a de maldizer foi a linguagem do Trovadorismo mais significativas. O objetivo dela era o de falar mal de uma pessoa, mas de forma direta. O Eu lírico podia difamar e até usar palavrões para descrever a pessoa. Um exemplo dessa cantiga é a de Pero Garcia Burgalês. Observe o trecho abaixo:

“Roi queimado morreu con amor
Em seus cantares por Sancta Maria
por ua dona que gran bem queria
e por se meter por mais trovador
porque lhela non quis [o] benfazer
fez-sel en seus cantares morrer
mas ressurgiu depois ao tercer dia!”

Nesse período a língua portuguesa ainda era bem heterogênea. E a linguagem do Trovadorismo também. É comum ver nas cantigas a mistura entre o galego-português, arcaico e provençal do sul da França, além de castelhano. Os substantivos e pronomes femininos também não tinham sido definidos na época, por isso quem lê as obras atualmente pode ficar confuso. 

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