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Cancioneiro Geral português

Postado por Esther Santana em 28/08/2019 e atualizado pela última vez em 20/07/2020

Coleção composta por poemas portugueses


O Cancioneiro Geral português é uma coleção da poesia lírica galego-portuguesa. Garcia Resende, cronista e poeta nascido em Portugal, foi o compilador e responsável pelo trabalho de organização geral da obra. Garcia Resende também acrescentou poemas próprios na compilação. O Cancioneiro Geral português foi lançado em 1516, mas as produções presentes no livro foram escritas entre 1449 e 1516. O prefácio do cancioneiro foi dedicado ao príncipe D. João II, mas outras poesias são destinadas a D. Afonso V e D. Manuel. 

O Cancioneiro Geral Português é composto por poesias de portugueses e castelhanos. A presença da língua espanhola no território português era muito comum devido à proximidade dos países pela Península Ibérica, território compartilhado entre Portugal e Espanha.  Na época, O Império Espanhol representava a maior força política e econômica do mundo. Era comum que os demais países da Europa, principalmente os que eram dominados pelos espanhóis, como Portugal, fossem influenciados pela cultura castelhana. O cancioneiro geral português por exemplo, foi lançado com base no Cancioneiro de Baena de 1445. 

Mas as influências das poesias palacianas não vinham somente de Portugal. Escritores como Francesco Petrarca, poeta humanista do século XIV, também influenciaram os poetas palacianos. As poesias palacianas eram assim chamadas porque foram escritas nos palácios. Os nobres não só compunham as poesias como também as destinava para esse mesmo grupo. As temáticas variavam muito. Amor, religião, cotidiano, política, economia e tantos outros assuntos comuns. A diferença principal era que agora a nobreza concedia sua perspectiva para as pessoas.

Antes da difusão das poesias palacianas, havia o trovadorismo. Um movimento artístico de linguagem bem diferente do palaciano. Estruturalmente, a poesia das duas correntes até que são parecidas. São compostas por versos, estrofes, possuem ritmo. Mas diferente do trovadorismo, na poesia palaciana não há melodia. 


A obra de Resende foi presenteada a João II, que se tornaria João III de Portugal. ( Foto: Wikipedia)


Aspectos do Cancioneiro Geral Português


As poesias do cancioneiro geral português versavam sobre os temas pertinentes à época. No quatrocentismo algumas escolas artísticas já dominavam o espaço cultural, mas o período era de transição e havia o fortalecimento do humanismo. No humanismo, as capacidades humanas ocupavam o centro do mundo. Logo no início do cancioneiro geral português pode-se observar que Garcia Resende exaltava as conquistas marítimas e a expansão territorial lusitana. 


Do humanismo surgiu a escola literária renascentista, onde nasceu a poesia palaciana com as prosas doutrinárias destinadas à nobreza. Dentre as características mais marcantes das poesias encontradas no cancioneiro geral português, estão a:


Intertextualidade – Os autores podiam escrever poesias de outras pré-existentes. A criação era coletiva. 


Improviso
– Nem sempre as poesias tinham temas específicos, podiam ser gerais. Os poetas também podiam competir entre eles.

 
Amadorismo – A poesia não era um meio de garantir os recursos necessários para a sobrevivência. Os nobres escreviam por prazer, para ter prestígio.


O cancioneiro geral português era bastante diversificado, as poesias da obra se dividiam em: 


Poesia satírica – Geralmente falava sobre a corrupção do clero.
Poesia dramática – Versava sobre a tristeza e a melancolia do poeta.
•Poesia amorosa – Relações amorosas da nobreza.
Poesia religiosa – Criticava a influência da igreja
Poesia didática – Basicamente feita de argumentação. Apresentava os pontos de vista dos nobres.
Poesia histórica – Falava sobre a guerra, as batalhas e conquistas territoriais.

A métrica das poesias palacianas também são compostas por ritmo, verso, medida, quantidade de palavras e estrofe. Na estrutura palaciana, a poesia é feita para ler, ela não é acompanhada de instrumento musical como no trovadorismo, ou mesmo de acompanhantes. No palacianismo, a leitura individual é valorizada.

A diferença é que aqui eles são denominados como redondilhas, versos de cinco ou sete sílabas. As redondilhas podem ser:


Composta por cinco sílabas poéticas - redondilhas menores.
Formada por sete sílabas poéticas – redondilhas maiores. 


Na produção poética palaciana, a primeira coisa que precisava ser definida era o mote. O mote era a primeira estrofe e apresentava o tema da poesia. Em seguida escrevia-se a glosa, também chamada de volta. A glosa era o desenvolvimento do tema. Definido o mote, o poeta tinha que definir qual modalidade poética escolheria. As alternativas eram:


Vilancete – composto por dois ou três motes, uma glosa, e estrofes com até sete versos.
Cantiga – Geralmente constituída de poesias amorosas, tinham motes de quatro ou cinco versos e uma glosa de até dez versos.
Esparsa – Comumente falava de situações melancólicas e tristes. Nesse formato não havia mote, apenas versos que variavam entre oito e dezesseis.
Trova – Sem tema definido, possuía quatro ou oito versos. 


Abaixo, um trecho de vilancete escrito por Luís de Camões:


"Ó meus altos pensamentos,
Quão alto que vós pusestes
E que grande queda destes! 


Como de mim vos não vinha
Serdes firme num estado
(Pois o viver enganado
Era o maior bem que tinha),
Castelo desta alma minha,
Quão alto que vós pusestes
E que grande queda destes! 


Sabia que éreis de vento,
Como quem vos viu fazer;
Inda assim vos queria ter
Como éreis, sem fundamento.
Quem vos desfez num momento?
Quão alto que vós pusestes
E que grande queda destes!"


O cancioneiro geral português possui textos de 300 compositores. Dentre os mais importantes, destacam-se: 

• Garcia de Resende – Poeta, músico e cronista português. Responsável por reunir todas as poesias e guardá-las no cancioneiro geral português. Garcia de Resende nasceu no ano de 1470, em Évora, Portugal e viveu a serviço da corte portuguesa. Resende se tornou escrivão da fazenda no reinado de D. João III, e seus talentos foi um fator primordial para que ele recebesse a tarefa de produzir o cancioneiro. 

Sá de Miranda – Francisco Sá de Miranda nasceu em 1481 em Coimbra, Portugal. O poeta português foi o pioneiro na arte do soneto, uma forma fixa de poema. Sá era compositor de cantigas, esparsas e vilancetes. No cancioneiro geral português, treze composições são de sua autoria. 

• Bernardim Ribeiro – Poeta renascentista. O escritor também é conhecido pelas novelas que escreveu como “Saudades” e “Menina e moça”. As referências sobre a vida e carreira do poeta são especulativas. Mas o que se sabe é que Ribeiro se apresentava na corte de Lisboa e foi pioneiro da poesia bucólica em Portugal.

• João Roiz de Castel-Branco – Nobre e poeta português. Também chamado de Joam, ele foi um militar e escritor renascentista. Frequentava a corte de D. Manuel I e D. João III e teve algumas composições integradas ao cancioneiro geral português. 


• Diogo Brandão – Poeta palaciano nascido em Porto, Portugal. Boa parte das poesias escritas por Brandão eram amorosas. Mas a obra de maior destaque do autor é um resumo sobre a vida de D. João II.



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