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Soneto

Postado por Filipe Oliveira em 03/07/2019 e atualizado pela última vez em 22/07/2020

Pode ser petrarquiano, inglês ou estrambótico


Soneto é um poema de forma fixa que se apresenta com 14 versos e quatro estrofes, sendo dois quartetos e dois tercetos. De acordo com pesquisadores, o soneto foi criado pelo poeta e humanista italiano Francesco Petrarca (1304-1374).

A palavra soneto significa “pequena canção”, ou, de forma literal, “pequeno som".

História


A criação do soneto é contestável. Em geral, sua origem é atribuída ao poeta e humanista Francesco Petrarca, do século XIV; no entanto, atualmente sabe-se que essa estrutura lírica já era usada um século antes por Giacomo de Lentino, ele teria criado a partir da poesia popular da Sicília. 

O soneto chegou a Portugal através de Sá de Miranda, no ano de 1527, e Luís de Camões foi o responsável por popularizar e levá-lo ao sucesso.

Tipos e estrutura dos sonetos


O soneto mais experimentado é o petrarquiano ou italiano. Contudo, Willian Shakespeare (1564-1616) inventou o soneto inglêsformado por três quartetos (estrofes com quatro versos) e um dístico (estrofe com dois versos).

Existe também o soneto monostrófico, composto por apenas uma estrofe com catorze versos. 

Normalmente os sonetos são obras literárias de conteúdo lírico formados, nessa ordem, por dois quartetos e dois tercetos.

Na estrutura de um soneto deve-se prestar atenção nos seguintes conceitos:

• Estrofe
Verso
• Métrica
• Rima

Exemplos


Soneto italiano

O soneto de Manuel Bandeira exibe a estrutura de sonetos italianos, ou seja, tem 14 versos que, normalmente, possuem dez sílabas poéticas, isto é, versos decassílabos ou alexandrinos. Esses versos são organizados em duas quadras e dois tercetos. Veja:

Frescura das sereias e do orvalho,
Dos brancos pés dos pequeninos
Voz das manhãs cantando pelos sinos
Rosa mais alta no mais alto galho:

De quem me valerei, se não me valho 
De ti, que tens a chave dos destinos 
Em que arderam meus sonhos cristalinos 
Feitos cinzas que em pranto ao vento espalho?

Também te vi chorar… Também sofreste
A dor de verem secarem pela estrada 
As fontes da esperança… E não cedeste!

Antes, pobre, despida e trespassada
Soubeste dar à vida, em que morreste
Tudo, — à vida, que nunca te deu nada!

Sempre que um soneto tiver tercetos que combinem somente duas rimas, eles deveram atender a organização cdc-dcd. Observe o exemplo dos tercetos de Manuel Bandeira:

Também te vi chorar… Também sofreste (C)
A dor de verem secarem pela estrada (D)
As fontes da esperança… E não cedeste! (C)

Antes, pobre, despida e trespassada, (D)
Soubeste dar à vida, em que morreste, (C)
Tudo, — à vida, que nunca te deu nada! (D)

Se o terceto tiver mais de três rimas elas devem ter as combinações a seguir:

1- ccd-eed

Exemplo:

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida: (C)
É preciso cantá-la assim florida, (C) 
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! (D)

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada (E)
Que seja a minha noite uma alvorada, (E)
Que me saiba perder... pra me encontrar... (D)
(Florbela Espanca)

2- cdc-ede

Exemplo:

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija! 
É ser mendigo e dar como quem seja 
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja! 
É ter cá dentro um astro que flameja, 
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito! (C)
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim (D)
É condensar o mundo num só grito! (C)

E é amar-te, assim, perdidamente(E)
É seres alma, e sangue, e vida em mim (D)
E dizê-lo cantando a toda a gente! (E)
(Florbela Espanca)


Soneto é um poema de forma fixa. (Foto: Pexels)

3- ced-cde

Exemplo:

Busque Amor novas artes, novo engenho, 
para matar me, e novas esquivanças; 
que não pode tirar me as esperanças, 
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho! 
Vede que perigosas seguranças! 
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto (C)
onde esperança falta, lá me esconde (D)
Amor um mal, que mata e não se vê. (E)

Que dias há que n'alma me tem posto (C)
um não sei quê, que nasce não sei onde, (D)
vem não sei como, e dói não sei porquê. (E)
(Luís de Camões)

Soneto inglês

Como foi estudado, esse tipo de soneto é formado por estrofes com quatro versos e uma estrofe com dois versos. A combinação rítmica é feita seguindo as seguintes instruções:

abab bcbc cdcd ee: conhecido por soneto spenseriano, criado por Edmund Spenser.
abab bcbc cdcd efef gg: conhecido como soneto shakespeariano ou soneto inglês.

Quando a morte cerrar meus olhos duros A
– Duros de tantos vãos padecimentos, B
Que pensarão teus peitos imaturos A
Da minha dor de todos os momentos? B

Vejo-te agora alheia, e tão distante: C
Mais que distante – isenta. E bem prevejo, D
Desde já bem prevejo o exato instante C
Em que de outro será não teu desejo, D

Que o não terás, porém teu abandono, E
Tua nudez! Um dia hei de ir embora F
Adormecer no derradeiro sono. E
Um dia chorarás… Que importa? Chora. F

Então eu sentirei muito mais perto G
De mim feliz, teu coração incerto. G

Soneto monostrófico

Esse tipo apresenta apenas uma estrofe, formada pelos 14 versos.

Amar é ter calhado em sorte
De viver abraçado à morte
E em lúdico beneplácito
Envolver-se banhando na lava
E deitando fora o básico
Corroer-se no ácido
Porque o amor não é neutro
E se encontra água gelada
Torna-se ilha vulcânica
Dura, porém orgânica
Que traz latente no ventre
A chama da lava ardente.
Em fase adormecida
Mas em explosão eminente.


Principais autores brasileiros


Veja a seguir os autores brasileiros que se destacaram na produção de sonetos:

• Gregório de Matos Guerra (1636-1696)
• Cláudio Manuel da Costa (1729-1789)
• Cruz e Sousa (1861-1898)
• Olavo Bilac (1865-1818)
• Augusto dos Anjos (1884-1914)
• Vinícius de Moraes (1913-1980)

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