O cenário da formação médica no Brasil está prestes a passar por uma transformação importante. O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) foi criado pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério da Educação com o objetivo de unificar e fortalecer a avaliação dos cursos de Medicina no país. A partir de 2025, a nova prova se tornará obrigatória para todos os estudantes concluintes de Medicina, substituindo o modelo atual do Enade e se integrando ao processo seletivo de residência médica do Enare.
O que é o Enamed?
O Enamed é uma nova avaliação que unifica dois exames anteriormente distintos: o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), que avalia o conhecimento dos formandos, e o Exame Nacional de Residência (Enare), que seleciona candidatos para programas de residência médica. A proposta é realizar uma avaliação mais ampla, padronizada e anual, que permita ao governo aferir a qualidade da formação médica no Brasil e, ao mesmo tempo, selecionar profissionais para especialização.
Por que o exame foi criado?
O lançamento do Enamed vem em meio a um cenário de preocupação com a qualidade dos cursos de Medicina no Brasil. Dados do Enade 2023 mostram uma piora no desempenho dos cursos em relação à última avaliação de 2019. Em 2021, 20% dos cursos avaliados não atingiram patamar satisfatório, frente a 13% em 2019.
Hoje, o país possui 390 faculdades de Medicina, sendo 80% delas privadas, movimentando R$ 26,4 bilhões anuais, cerca de 40% do mercado de ensino superior. Especialistas apontam que a expansão acelerada dos cursos nos últimos anos, um aumento de 127% entre 2010 e 2023, ocorreu sem o devido cuidado com infraestrutura, qualidade de ensino e oferta de estágios.
Quais são os objetivos do Enamed?
Durante a cerimônia de lançamento, os ministérios destacaram que o Enamed tem quatro principais objetivos:
• Avaliar o desempenho dos estudantes com base nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), incluindo habilidades técnicas e conhecimento sobre temas sociais e humanísticos;
• Verificar a formação alinhada às necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS);
• Criar um instrumento nacional e padronizado de avaliação da formação médica;
• Oferecer dados que subsidiem políticas públicas voltadas ao ensino superior em Medicina.
Como será a prova?
O Enamed será composto por 100 questões objetivas de múltipla escolha, abrangendo todas as áreas essenciais da prática médica: Clínica Médica, Cirurgia Geral, Ginecologia e Obstetrícia, Pediatria, Medicina de Família e Comunidade, Saúde Mental e Saúde Coletiva. A aplicação será conduzida pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).
Quem deve fazer?
A prova do Enamed será obrigatória para todos os estudantes concluintes dos cursos de Medicina e passará a integrar o currículo obrigatório da graduação, conforme previsto pela Lei nº 10.861/2004. Médicos já formados que desejem utilizar a nota para concorrer a vagas de residência também poderão se inscrever individualmente.
As inscrições dos estudantes serão feitas pelas próprias instituições de ensino. A expectativa para a primeira edição, prevista para outubro de 2025, é de participação de cerca de 300 instituições e 42 mil formandos.
Haverá custo?
Sim, para os candidatos que desejarem utilizar a nota do Enamed para o processo seletivo do Enare, será necessário pagar uma taxa de inscrição. Em 2024, esse valor foi de R$ 330. Já os concluintes inscritos apenas para fins de avaliação de curso (sem interesse imediato na residência médica) estarão isentos dessa taxa.
O exame reprova?
Não. O Enamed não reprova os candidatos. Ele serve como instrumento de avaliação do desempenho dos estudantes e como processo seletivo para a residência. Contudo, há discussões no Senado, com apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM), para a criação de um Exame Nacional de Proficiência em Medicina, nos moldes da OAB, que impediria o exercício profissional em caso de reprovação, o que ainda não está em vigor.
O que muda na prática?
A principal mudança é a unificação e obrigatoriedade anual do exame, substituindo o modelo atual do Enade específico para Medicina, que era aplicado a cada três anos. Além disso, o uso da nota para a seleção em programas de residência médica por meio do Enare cria um elo mais direto entre a formação acadêmica e o próximo passo profissional. O MEC afirma que a nova prova permitirá maior integração entre avaliação educacional, qualificação médica e políticas públicas de saúde, com foco em fortalecer o SUS e melhorar a qualidade do ensino superior.
A Associação Nacional de Educação Católica (ANEC) também acompanha a regulamentação do Enamed, com atenção especial aos impactos nas instituições católicas de ensino superior, e reforça seu compromisso com a formação ética e técnica de profissionais da saúde.
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