A ideia de que os profissionais mais jovens preferem trabalhar exclusivamente de casa parece estar perdendo força. Uma pesquisa da Gallup mostra que a Geração Z é, na verdade, a faixa etária menos interessada no trabalho 100% remoto entre as gerações analisadas.
Segundo o levantamento, apenas 23% dos profissionais da Geração Z que podem trabalhar remotamente preferem trabalhar exclusivamente de casa. O percentual é menor do que o registrado entre Millennials, Geração X e Baby Boomers, que chega a 35%.
O dado chama atenção porque a geração nascida a partir de 1997 cresceu cercada por tecnologia e ferramentas digitais. Ainda assim, quando o assunto é trabalho, muitos jovens não querem que a tela substitua completamente a convivência.
Jovens preferem o meio-termo
A preferência da Geração Z está no trabalho híbrido. Segundo a pesquisa, 71% dos jovens dizem preferir esse modelo, o maior percentual entre todas as gerações analisadas. A escolha faz sentido para profissionais que querem manter a liberdade de trabalhar de diferentes lugares, mas também enxergam valor em encontrar colegas e gestores presencialmente.
Já o trabalho no escritório todos os dias não parece ser uma alternativa popular. Somente 6% da Geração Z gostaria de trabalhar presencialmente em tempo integral. Ou seja, a preferência não é simplesmente pelo retorno ao escritório. O que aparece com mais força é a busca por um equilíbrio entre flexibilidade e convivência.
Solidão também entra na conta
Trabalhar de casa pode resolver problemas como deslocamento e falta de flexibilidade, mas também pode trazer um efeito menos comentado: a sensação de isolamento. Quase 30% dos profissionais da Geração Z afirmam ter se sentido solitários no trabalho, segundo os dados apresentados pela Gallup.
O índice é aproximadamente duas vezes maior que o registrado entre trabalhadores da Geração X. A questão pode pesar ainda mais para quem está no início da carreira. Afinal, aprender uma profissão não acontece apenas em cursos, reuniões ou treinamentos.
Muitas vezes, o aprendizado vem de uma conversa rápida com um colega, de acompanhar como um gestor resolve determinado problema ou simplesmente de estar por perto para observar a rotina.
Para Jim Harter, pesquisador-chefe de ambiente de trabalho e bem-estar da Gallup, existe entre os jovens um desejo por mais conexão presencial. A percepção é de que construir relacionamentos profissionais pode ser mais difícil quando todo o contato acontece remotamente.
E a carreira, como fica?
A preocupação da Geração Z não termina na socialização. O crescimento profissional também aparece entre os motivos para não escolher o trabalho totalmente remoto. Para jovens que ainda estão construindo sua trajetória, estar presencialmente pode facilitar o acesso a feedbacks, projetos, lideranças e contatos que ajudam a abrir portas.
Harter afirma que alguns profissionais da geração sentem que suas carreiras podem ser prejudicadas pelo trabalho 100% remoto. Um dos motivos seria a dificuldade de entender como o próprio trabalho se conecta aos objetivos maiores da empresa.
A questão também foi analisada pelo economista Joshua Mask, da Temple University. Em um estudo com dados de 2020 a 2023, ele avaliou os efeitos do trabalho remoto sobre profissionais em início de carreira, considerando um período anterior à grande expansão da inteligência artificial no mercado.
O escritório voltou a ser importante?
Não exatamente. Os números mostram que a Geração Z não está pedindo uma rotina presa ao escritório. Pelo contrário, o trabalho presencial em tempo integral é rejeitado pela maioria. A preferência pelo híbrido indica uma mudança mais interessante.
Para esses profissionais, flexibilidade e convivência não são necessariamente opostos. É possível querer autonomia para trabalhar de casa e, ao mesmo tempo, considerar importantes os encontros presenciais.
Uma pesquisa brasileira publicada em 2026 chegou a uma conclusão semelhante. A maioria dos profissionais da Geração Z ouvidos se mostrou contrária ao trabalho totalmente remoto e valorizou o contato presencial para aprendizado e socialização, embora também rejeite modelos rígidos de jornada.
Para as empresas, o desafio passa a ser encontrar esse equilíbrio. Uma das possibilidades apontadas por Harter é definir dias em que toda a equipe esteja presencialmente, criando momentos específicos para reuniões, trocas e integração.
No fim, a relação da Geração Z com o trabalho parece ser menos sobre “casa ou escritório” e mais sobre ter liberdade sem abrir mão das conexões que ajudam a construir uma carreira. E, para quem está começando a vida profissional, essa diferença pode ser maior do que parece.
Veja também: Geração Z é a mais preocupada com impactos da IA no trabalho
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