Em 29 de janeiro de 2004, Brasília sediou o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, do Ministério da Saúde, marco que originou o Dia Nacional da Visibilidade Trans, voltado ao reconhecimento da luta e da resistência de travestis, mulheres e homens trans no Brasil.
Mais de vinte anos depois, houve avanços relevantes, como o uso do nome social, a requalificação civil, o acesso à cirurgia transgênero pelo SUS e a retirada da transsexualidade da lista de transtornos mentais pela OMS. A presença de pessoas trans na política, com a eleição de Erica Malunguinho e Erika Hilton, também simboliza conquistas institucionais.
Ainda assim, a inclusão no mercado de trabalho formal avança lentamente. Dados sobre emprego, renda e acesso a carreiras públicas mostram que a população trans segue enfrentando desigualdades estruturais e barreiras persistentes à inserção profissional.
Estudo inédito do Ipea lança luz sobre a empregabilidade trans
Uma nota técnica inédita do Ipea traz dados sobre a presença de pessoas trans no mercado formal de trabalho, contribuindo para a formulação de políticas públicas voltadas a grupos historicamente invisibilizados.
Elaborado por pesquisadores da Disoc/Ipea, o estudo apresenta uma metodologia pioneira para identificar a população trans em registros oficiais, como CPF e Rais. Intitulado A inserção e as características das pessoas trans no assalariamento formal, o trabalho integra o Boletim Mercado de Trabalho nº 80 e busca suprir a falta de dados sobre identidade de gênero, entrave central para políticas efetivas de inclusão.
Metodologia identifica quase 39 mil pessoas trans em registros oficiais
A análise do CPF permitiu ao Ipea identificar 38,7 mil pessoas trans entre 14 e 64 anos. Desse total, 47,6% alteraram nome e gênero entre 2023 e 2025 e 45,8% possuem nome social registrado, evidenciando o alcance, ainda parcial, da identificação em dados oficiais.
A maioria tem entre 18 e 30 anos (59,8%), indicando maior reconhecimento das identidades de gênero entre os jovens. Regionalmente, o Sudeste concentra 51,1% dos registros, seguido pelo Sul (15,9%), enquanto Norte e Nordeste apresentam menor representatividade, possivelmente ligada a desigualdades no acesso à retificação de documentos.
Apenas 25% das pessoas trans estão no emprego formal
Ao cruzar dados do CPF com a Rais 2023, o estudo revelou que apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente, taxa 6,8 pontos percentuais inferior à da população geral.
As desigualdades são mais intensas entre mulheres trans (20,7%), frente a 31,1% entre homens trans, e nas regiões Nordeste (17,8%) e Centro-Oeste (24%). Mesmo no Sul e Sudeste, os índices permanecem abaixo da média nacional, indicando barreiras persistentes à contratação e à permanência no mercado formal.
Renda menor e concentração em setores de menor prestígio
Além das dificuldades de acesso ao emprego, pessoas trans inseridas no mercado formal recebem, em média, R$ 2.707 por mês, valor 32% inferior à média nacional. Mesmo com ensino superior, a renda é 27,6% menor em comparação a trabalhadores não trans com a mesma escolaridade.
O estudo aponta ainda concentração em setores de menor remuneração, como comércio e serviços, e baixa presença no setor público: apenas 5,5% ocupam cargos estatutários, proporção cerca de duas vezes menor que a da população total.
Exclusão estrutural, informalidade e riscos de violação de direitos
A baixa inserção no mercado formal reflete exclusão e discriminação estruturais. Dados da Antra indicam que cerca de 90% das pessoas trans recorrem à prostituição, diante da falta de oportunidades formais e seguras.
Abandono escolar, ausência de redes de apoio e entraves para o reconhecimento da identidade de gênero mantêm a população trans na informalidade, ampliando a vulnerabilidade e o risco de violações de direitos, incluindo exploração e trabalho análogo à escravidão, já identificados pelo MPT.
A situação é ainda mais grave para pessoas trans negras, afetadas pela sobreposição da transfobia com o racismo estrutural.
Violência segue como um dos maiores obstáculos
Mesmo com avanços legais, a violência permanece como um dos principais desafios. O Brasil segue, pelo 15º ano consecutivo, como o país que mais mata pessoas trans no mundo, segundo a Transgender Europe (TGEU).
Em 2023, a maioria das vítimas foi de travestis e mulheres trans jovens, entre 15 e 29 anos, que vivenciam sua identidade de forma aberta e pública, de acordo com a Antra. Esse contexto de violência afeta diretamente trajetórias educacionais e profissionais, dificultando a permanência na escola, o acesso à qualificação e a construção de carreiras de longo prazo.
Transfobia é crime e deve ser denunciada
Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que práticas homofóbicas e transfóbicas se enquadram na Lei do Racismo, até que o Congresso Nacional aprove legislação específica. Em 2023, o STF também equiparou ofensas contra pessoas LGBTQIAPN+ ao crime de injúria racial.
Casos de discriminação e violência podem ser denunciados pelo Disque Direitos Humanos – Disque 100.
Inclusão exige ações coordenadas
Os dados reforçam que a inclusão trans no mercado de trabalho não depende apenas de avanços legais, mas de ações estruturadas e contínuas. Políticas afirmativas, programas de qualificação profissional, incentivo à permanência escolar, redes de apoio e mecanismos eficazes de fiscalização são fundamentais.
Para que o avanço seja consistente, é indispensável o engajamento conjunto de empresas, poder público e sociedade civil, reconhecendo que diversidade e inclusão são pilares para um mercado de trabalho mais justo, seguro e alinhado aos princípios de direitos humanos.
Veja também: Dia da Visibilidade Trans: quais são as ações necessárias para a inclusão?
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