A saúde mental deixou de ser um assunto restrito ao consultório ou às conversas sobre qualidade de vida. Dentro das empresas, o tema ganhou ainda mais importância com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais.
A mudança coloca no radar situações como sobrecarga de trabalho, jornadas excessivas, metas abusivas, pressão constante, assédio e conflitos no ambiente profissional. A partir de agora, as empresas precisam olhar para esses fatores e adotar medidas para evitar que eles contribuam para o adoecimento dos trabalhadores.
A nova regra entrou em fase de fiscalização efetiva em maio de 2026, depois de um período adicional concedido para que as organizações pudessem se adaptar.
O que muda com a nova NR-1?
A atualização amplia o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Além dos riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes, as empresas também precisam considerar fatores psicossociais relacionados à forma como o trabalho é organizado.
Isso significa avaliar, por exemplo, se as metas são compatíveis com a realidade das equipes, se a jornada está adequada, como ocorre a distribuição das tarefas e se existem situações de assédio ou violência no ambiente profissional.
Esses fatores devem ser considerados no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e acompanhados junto às demais medidas de saúde e segurança. A ideia não é fazer um diagnóstico psicológico de cada funcionário. O foco está nas condições de trabalho que podem provocar ou agravar problemas de saúde.
Por que a mudança acontece agora?
Os números de afastamentos ajudam a explicar a preocupação crescente com o assunto. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, número 15,6% maior que o registrado em 2024, quando foram concedidos 472.328 benefícios.
Entre os principais motivos estavam os transtornos de ansiedade, responsáveis por 166.489 benefícios, e os episódios depressivos, com 126.608. Também foram registrados milhares de casos relacionados ao estresse grave e aos transtornos de adaptação.
Os dados não significam que todos esses casos tenham sido provocados pelo trabalho. Saúde mental é resultado de diferentes fatores. Ainda assim, o ambiente profissional pode contribuir para o agravamento de determinados problemas, principalmente quando há excesso de demandas, pressão constante ou relações abusivas.
Empresas terão de rever práticas?
A nova NR-1 traz uma mudança importante de perspectiva. Em vez de agir somente quando o trabalhador já está adoecido, as organizações precisam investir na prevenção. Na prática, isso pode envolver revisão de metas, melhor organização das jornadas, capacitação de gestores, canais de denúncia, combate ao assédio e espaços de escuta.
A liderança também ganha papel relevante. Uma cobrança excessiva, uma comunicação inadequada ou uma rotina de trabalho mal planejada podem gerar impactos que vão muito além da produtividade. A prevenção dos riscos psicossociais também deve ser observada em conjunto com outras normas, como a NR-17, que trata da ergonomia.
Saúde mental passa a fazer parte da segurança do trabalho
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a síndrome de burnout como um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho. A atualização da NR-1 segue uma tendência de ampliar o olhar sobre a relação entre trabalho e saúde.
Nos primeiros 90 dias de fiscalização, a atuação do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) terá caráter orientativo. Nesse período, as empresas poderão receber orientações sobre adequações necessárias. Depois, poderão ser aplicadas penalidades, como multas e embargos, conforme a situação.
Mais do que cumprir uma nova exigência, as empresas têm diante de si a oportunidade de rever a própria cultura organizacional. Afinal, produtividade e saúde não precisam estar em lados opostos. A nova NR-1 reforça justamente essa ideia: prevenir também significa cuidar da forma como o trabalho é planejado, cobrado e realizado.
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