O Brasil pode ter dificuldades para encontrar professores para ocupar as
salas de aula nos próximos anos. O alerta está relacionado a uma combinação de
fatores: o envelhecimento dos profissionais que já estão na carreira, a redução
na formação de novos docentes e condições de trabalho que podem afastar parte
dos jovens da profissão.
Os dados fazem parte da segunda edição do estudo “Apagão dos
Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil”,
divulgado pelo Instituto Semesp em setembro de 2026.
O levantamento mostra uma mudança significativa na faixa etária dos
professores do Ensino Médio. Entre 2015 e 2025, a quantidade de docentes com
até 24 anos caiu 31,1%. No mesmo período, o número de professores com 60 anos
ou mais aumentou 104,5%.
Com isso, o país chegou a uma proporção de aproximadamente um professor jovem para cada três docentes com 60 anos ou mais. A situação chama atenção porque a saída de profissionais mais experientes precisará ser acompanhada pela chegada de uma nova geração.
Por que a carreira docente perdeu atratividade?
A dificuldade de renovação não depende apenas do número de pessoas que
concluem uma licenciatura. O interesse pela profissão também pode ser afetado
pelas condições encontradas no cotidiano escolar.
Entre os fatores apontados pelo Semesp estão remuneração, sobrecarga
de trabalho, falta de valorização profissional e
ausência de políticas estruturais de incentivo à carreira.
Uma pesquisa anterior do instituto, realizada com professores da Educação
Básica, mostrou que 79,4% dos participantes já haviam pensado em deixar a
profissão. O levantamento também identificou relatos relacionados à insegurança
e ao desânimo com o futuro da carreira.
A violência é outro ponto citado. Mais da metade dos professores ouvidos na
pesquisa, 52,3%, afirmou já ter passado por algum tipo de violência durante o
exercício profissional.
Esses fatores ajudam a explicar por que aumentar o número de formandos não é
suficiente. A renovação também depende da capacidade de atrair profissionais e
criar condições para que eles permaneçam na sala de aula.
Formação de novos professores também diminuiu
O desafio aparece ainda antes da entrada no mercado de trabalho. Entre 2015 e 2024, o número de concluintes de cursos de licenciatura caiu 13,5%, segundo o Semesp. A redução foi ainda mais expressiva nos cursos presenciais. O número de formandos passou de aproximadamente 152 mil para 71,7 mil no período, queda de 52,9%.
Já a modalidade a distância cresceu 56,8% entre 2015 e 2024 e chegou a cerca
de 134 mil concluintes. Apesar disso, houve redução de 29,4% no número de
concluintes de licenciaturas a distância entre 2021 e 2024.
O levantamento também mostra uma diminuição na quantidade de formandos mais
jovens em algumas áreas. Educação Física teve queda de 64,6% entre os
concluintes com até 24 anos, seguida por Biologia, com 39,1%, Química, com
28,1%, e Filosofia, com 23,4%.
Salário e carga de trabalho entram na discussão
A remuneração é outro aspecto considerado quando se analisa a atratividade da carreira. Dados da RAIS utilizados no estudo indicam que, em 2025, professores do Ensino Médio recebiam aproximadamente R$ 6,5 mil por mês.
O valor era cerca de 20% inferior à renda mensal dos trabalhadores com ensino superior completo, de aproximadamente R$ 8,1 mil.
A diferença também aparece entre as disciplinas. Professores de Sociologia do Ensino Médio, por exemplo, tinham remuneração média de aproximadamente R$ 4.695. Além do salário, a rotina pode envolver uma carga elevada de trabalho.
O indicador de esforço docente do Inep mostra que, em 2025, 41,4% dos professores do Ensino Médio estavam em uma situação que reunia entre 50 e 400 alunos, atuação em dois turnos, em uma ou duas escolas e em duas etapas de ensino.
Na prática, isso pode significar mais turmas, provas para corrigir, aulas para preparar e deslocamentos entre diferentes unidades.
Quais áreas podem ter mais dificuldade para repor professores?
O risco de falta de docentes não é igual em todas as disciplinas. O Semesp
utiliza a Taxa de Renovação Docente para observar a entrada de
novos profissionais em relação à necessidade de reposição do quadro.
Em 2023, nenhuma das áreas analisadas atingiu índice igual ou superior a 1.
Geografia apresentou taxa de 0,216, seguida por História, com 0,234; Língua Portuguesa, com 0,240; Sociologia, com 0,263; e Filosofia, com 0,274.
Os números mostram que algumas áreas apresentam maior dificuldade para renovar seus quadros. Esse cenário ganha importância à medida que professores mais velhos se aproximam da aposentadoria e o número de jovens interessados ou formados nessas áreas diminui.
Rede pública teve mais contratos temporários
A forma de contratação também mudou nos últimos anos. Entre 2015 e 2025, o número de professores temporários na rede pública aumentou 40,4%. Ao mesmo tempo, a quantidade de docentes efetivos caiu 16,4%, segundo o estudo.
A mudança faz parte de um cenário mais amplo de transformação da carreira
docente. Para enfrentar a possível falta de profissionais, o desafio passa por
diferentes etapas: formação, entrada no mercado, condições de trabalho e
permanência na profissão.
Ou seja, o debate sobre o futuro dos professores não envolve apenas formar
mais pessoas. Também é necessário entender o que pode levar novos profissionais
a escolherem a docência e permanecerem nela.
Como se preparar para seguir carreira na educação?
Para quem tem interesse em trabalhar em escolas, a licenciatura é uma das principais portas de entrada para a carreira docente na Educação Básica.
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