A Violência de gênero nas escolas é qualquer
comportamento, ação ou atitude que discrimine, intimide, humilhe ou agrida uma
pessoa por causa do seu gênero ou da forma como ela expressa sua identidade.
Esse tipo de violência pode acontecer por meio de:
- Ofensas
e apelidos preconceituosos;
- Bullying
relacionado ao gênero;
- Assédio
moral ou sexual;
- Exclusão
de atividades por ser menino ou menina;
- Comentários
machistas ou sexistas;
- Agressões
físicas ou psicológicas.
A violência de gênero prejudica o aprendizado, a convivência
escolar e o bem-estar dos estudantes. Por isso, as escolas devem promover o
respeito às diferenças, a igualdade de direitos e ações de conscientização para
prevenir qualquer forma de discriminação.
Desigualdade de gênero ainda é desafio no ambiente escolar
Um estudo divulgado em 2025 pela organização Perkins&Will revelou que a desigualdade de gênero também se manifesta nos espaços escolares. Segundo a pesquisa "Girls Just Wanna Have Fun", durante os intervalos, os meninos costumam ocupar as áreas centrais de lazer, enquanto as meninas permanecem mais nas laterais do pátio, com menos acesso aos espaços de convivência.
Para a professora do Grupo Eureka, Márcia Pereira, doutora
em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, esse cenário reflete um
comportamento que também pode ser observado em outros ambientes da sociedade.
"De um tempo para cá, as mulheres vêm se empoderando e
ocupando espaços, um movimento alguns homens não acompanharam. Ao contrário,
muitos se mobilizam para impedir o avanço feminino. Ou seja, quando uma menina
busca acessar um espaço, seja uma quadra ou o pátio da escola, ela acaba sendo
rechaçada ou mesmo agredida", afirma Márcia Pereira.
A educadora destaca ainda que discursos misóginos têm
ganhado visibilidade nas redes sociais e alcançado um público cada vez mais
jovem. Segundo ela, comunidades conhecidas como "machosfera" reúnem
homens que compartilham conteúdos de ódio contra as mulheres, influenciando
comportamentos dentro e fora das escolas.
Para Márcia Pereira, o enfrentamento desse problema exige ações permanentes no ambiente escolar. "Como boa parte do recrutamento para esse movimento contra as mulheres é de adolescentes, não basta a escola fazer uma palestra ou os professores falarem sobre o tema. É necessário ir além, e trabalhar a cultura, a linguagem, a atitude e as relações dos estudantes dentro da unidade de ensino", explica a professora.
8 caminhos para enfrentar a violência de gênero nas escolas
A professora Márcia Pereira destaca oito propostas para
gestores escolares adotarem na escola como forma de evitar comportamentos
violentos de garotos contra garotas.
- Educação
e conscientização desde cedo: inserir, já na educação infantil, a
importância da integração de gênero, garantindo que meninos e meninas
participem de todas as atividades oferecidas pela pré-escola ou pelas
creches.
- Formação
de professores: capacitar os docentes para trabalhar as relações de
gênero em sala de aula e apoiá-los na mediação e resolução de conflitos no
ambiente escolar.
- Intervenções
imediatas e consistentes: orientar os profissionais da educação a
manter atenção constante a episódios de violência física e verbal contra
meninas, evitando que essas práticas sejam naturalizadas na escola.
- Revisar
materiais didáticos: assegurar que apostilas e conteúdos (textos e
imagens) não reproduzam preconceitos de gênero, além de incentivar a
criação de materiais que fortaleçam a autoestima das meninas e evidenciem
sua participação em diferentes espaços.
- Criação
de um ambiente seguro: estabelecer regras de convivência que protejam
as crianças e impeçam a reprodução de discursos de ódio contra as
mulheres. Em salas ou espaços onde as meninas são minoria, é fundamental a
presença atenta de um adulto responsável, garantindo um ambiente acolhedor
e seguro.
- Projetos
e campanhas escolares constantes: desenvolver iniciativas pedagógicas
que incentivem o protagonismo dos estudantes, conforme previsto nos
documentos orientadores e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Essas
ações favorecem maior integração, respeito entre os alunos e o engajamento
em campanhas de combate à violência contra diferentes grupos sociais.
- Envolvimento
da comunidade escolar: promover a escuta ativa das famílias,
criando espaços de diálogo sobre os principais desafios do território, e
fortalecer as práticas pedagógicas com a participação e a legitimidade dos
responsáveis.
- Incentivo
ao protagonismo feminino: estimular e valorizar a formação de
lideranças femininas, incentivando a participação das alunas em grêmios
estudantis, cursos técnicos, especialmente nas áreas de tecnologia, e em
atividades extracurriculares como futebol, basquete, vôlei, xadrez, dança,
teatro, entre outras práticas.
Produções audiovisuais
O documentário "Por dentro da Machosfera",
lançado recentemente na Netflix, é mais uma produção audiovisual que mostra
como esse comportamento é recebido pelo público mais jovem.
Em 2025, a série "Adolescência" também levantou um
denso debate ao retratar um garoto de 13 anos que, exposto a conteúdos online
misóginos e influenciado por figuras controversas, é levado a cometer um ato de
violência com sua colega de escola.
ECA Digital
Outro avanço significativo apontado por Márcia é a recente regulamentação do ECA Digital, que amplia a proteção de crianças e adolescentes no ambiente
virtual. Apesar da relevância do novo marco, é fundamental que essas diretrizes
sejam incorporadas ao cotidiano escolar por meio da mediação de docentes e
gestores escolares.
"É importante que todas essas novidades dialoguem com
as realidades dos estudantes. Hoje temos ferramentas que apoiam os professores,
mas como elas estão sendo trabalhadas pelas equipes pedagógicas?",
questiona a especialista.
O ECA Digital também estabelece responsabilidades para as
plataformas digitais, determinando que as empresas ajam com rapidez diante da
disseminação de conteúdos violentos e adotem medidas para restringir o acesso
de crianças às redes sociais.
Violência de gênero nas escolas reforça a importância de ambientes educacionais acolhedores
A escola desempenha um papel fundamental na formação
acadêmica e social dos alunos. Além do aprendizado em sala de aula, é nesse
ambiente que crianças e adolescentes desenvolvem valores como respeito,
empatia, convivência e cidadania.
Debates sobre temas como violência de gênero, bullying e
inclusão têm reforçado a importância de instituições de ensino comprometidas
com a construção de um ambiente seguro e acolhedor para todos os estudantes.
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