As apostas online, antes vistas como entretenimento, estão se tornando um obstáculo real à educação superior no Brasil. Segundo pesquisa divulgada pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) em parceria com a consultoria Educa Insights, 34% dos jovens brasileiros entre 18 e 35 anos deixaram de ingressar na universidade em 2025 devido a gastos com sites de apostas, como os populares “jogos do tigrinho”.
A projeção é ainda mais preocupante para o próximo ano: dos 2,9 milhões de potenciais ingressantes no primeiro semestre de 2026, cerca de 986 mil podem não efetivar a matrícula por comprometimento financeiro com as bets. O impacto é maior no Nordeste (44%), Sudeste (41%) e entre as classes D e E (43%). Já Norte e Centro-Oeste apresentaram queda no índice, de 33,16% e 24,97%, respectivamente.
Aposta ou educação?
A prática das apostas online se disseminou entre os jovens: 52% dizem apostar regularmente, um salto expressivo frente aos 42,9% registrados no ano passado. A frequência média é de uma a três vezes por semana, com valores que variam significativamente conforme a classe social.
Jovens da classe A chegam a gastar, em média, R$ 1.210 por mês com apostas. Já nas classes D e E, a média é de R$ 421. Em cerca de 80% dos casos, o gasto representa até 5% da renda mensal, mas entre os mais pobres, esse percentual chega a ultrapassar 10% do orçamento.
A pesquisa, realizada entre os dias 20 e 24 de março com 11.762 estudantes de todo o Brasil, também alerta para as consequências entre os que já ingressaram no ensino superior. Cerca de 14% dos universitários atrasaram mensalidades ou trancaram a matrícula em razão dos gastos com apostas, índice que chega a 17% no Nordeste.
Apostas são o segundo destino online mais acessado no país
Outro dado que chama atenção é o protagonismo das plataformas de apostas no ambiente digital. Segundo a ABMES, os sites de bets já são o segundo maior destino da internet brasileira, atrás apenas do Google, superando inclusive redes sociais como WhatsApp e YouTube.
Para mais de 45% dos entrevistados, o gasto mensal com apostas em 2025 já ultrapassa os R$ 350, um crescimento em relação aos 30,8% verificados em 2024. O impacto financeiro não se restringe à educação. Cerca de 24% dos jovens relataram que deixaram de investir em academias ou atividades físicas para apostar, e 28% afirmaram ter reduzido saídas sociais com amigos e família.
Pressão por regulação
O crescimento do vício em apostas e seu impacto sobre a juventude acendeu o alerta no Congresso Nacional. A CPI das Bets, instalada no Senado para investigar o tema, ouviu especialistas, educadores e propôs o indiciamento de influenciadores. Apesar disso, o relatório final foi rejeitado.
Na terça-feira (8), o Senado voltou a adiar a votação do projeto que legaliza cassinos, bingos e o jogo do bicho, proposta que não inclui diretamente as apostas online. Enquanto isso, educadores e instituições de ensino alertam para o avanço silencioso das plataformas de apostas sobre o tempo, o orçamento e o futuro educacional de milhões de brasileiros.
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