O calor aperta, o suor escorre e o corpo entra em modo de adaptação. Para manter a temperatura interna estável, o organismo aciona uma série de mecanismos automáticos, e o sistema cardiovascular está no centro dessa resposta.
Em dias muito quentes, o coração trabalha mais, a pressão arterial tende a cair e, em algumas pessoas, esse ajuste pode sair do controle, aumentando o risco de mal-estar, arritmias e até eventos graves, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Com ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, especialistas alertam para o impacto direto das altas temperaturas sobre a saúde do coração e do cérebro, sobretudo entre idosos e pessoas com doenças cardiovasculares.
Dilatação dos vasos sanguíneos
Com o aumento da temperatura, os vasos sanguíneos se dilatam para dissipar o calor, reduzindo a pressão arterial. Em algumas pessoas, esse ajuste falha: a perda de líquidos diminui o volume de sangue circulante, força o aumento da frequência cardíaca e pode causar tontura, fraqueza, escurecimento da visão e desmaios, especialmente em quem tem hipotensão postural ou síncope vasovagal.
Desidratação no calor
O suor é essencial para esfriar o corpo, mas leva embora água e sais minerais importantes, como sódio e potássio. A perda de eletrólitos interfere no sistema elétrico do coração, aumentando o risco de arritmias, especialmente em pessoas com doenças cardiovasculares prévias. Esse desequilíbrio cria um cenário propício para eventos graves quando associado ao estresse térmico prolongado.
Calor extremo e aumento de eventos cardiovasculares
Embora infartos e AVCs sejam historicamente mais associados ao frio, estudos recentes indicam que ondas de calor prolongadas também elevam o risco desses eventos, sobretudo em grupos vulneráveis.
Dados globais reforçam o alerta. Uma análise publicada na revista científica The Lancet Neurology mostra que a carga global de AVC associada às altas temperaturas aumentou 72% desde 1990. No mesmo período, os casos de AVC cresceram 44% e as mortes relacionadas à condição aumentaram cerca de 70% em todo o mundo.
Quem precisa redobrar os cuidados no calor
Os especialistas apontam alguns grupos que sofrem mais com o impacto das altas temperaturas sobre o coração e o cérebro:
• Idosos, que sentem menos sede e se desidratam com facilidade
• Pessoas com hipertensão, diabetes ou insuficiência cardíaca
• Quem já teve infarto ou AVC
• Atletas e trabalhadores expostos ao sol intenso
Nesses casos, o risco não está apenas na temperatura elevada, mas no desequilíbrio entre calor, hidratação e esforço físico. Pacientes que usam diuréticos e medicamentos anti-hipertensivos também podem sentir os efeitos do calor de forma mais intensa.
Sinais de alerta exigem atenção imediata
Durante períodos de calor intenso, alguns sintomas não devem ser ignorados e exigem avaliação médica:
• Desmaio
• Dor no peito
• Palpitações persistentes
• Falta de ar fora do habitual
• Confusão mental, especialmente em idosos
Esses sinais podem indicar comprometimento cardiovascular ou neurológico e precisam de investigação rápida.
Exercício físico no calor requer cautela
Durante a atividade física, o coração precisa irrigar músculos e pele ao mesmo tempo, o que eleva a frequência cardíaca e a sensação de esforço.
Por isso, médicos recomendam evitar os horários mais quentes do dia, buscar sombra, fazer pausas frequentes e reforçar a hidratação, não apenas com água, mas também com reposição de eletrólitos quando o suor é intenso.
Além disso, especialistas orientam evitar álcool e excesso de cafeína, usar roupas leves e claras, permanecer em ambientes ventilados ou climatizados e fugir do sol forte nos horários de pico.
O impacto global do AVC
O AVC acontece quando um vaso que leva sangue ao cérebro entope ou se rompe, interrompendo o fornecimento de oxigênio. É uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo.
No Brasil, mais de 56 mil mortes foram registradas apenas no primeiro semestre de 2023. Globalmente, 11,9 milhões de pessoas sofreram AVC em 2021, um aumento de 70% desde 1990, com 7,3 milhões de óbitos. Mais de 75% dos casos ocorrem em países de baixa e média renda, onde fatores como calor extremo e poluição do ar agravam o risco.
Fatores de risco além do calor
Embora o calor tenha forte impacto no aumento dos casos de AVC, ele não age isoladamente. Fatores metabólicos, como hipertensão, IMC elevado e colesterol alto, respondem por até 70% da carga da doença.
Já fatores ambientais, como poluição do ar e temperaturas extremas, pesam mais em países de baixa e média renda. Em contrapartida, a redução do tabagismo e melhorias na alimentação mostram que ações de prevenção são eficazes.
Prevenção: cuidados simples fazem diferença
Para enfrentar o calor extremo, a principal orientação é manter hidratação regular, mesmo sem sentir sede. Também é recomendado usar roupas leves e claras, evitar o sol entre 10h e 16h, aplicar protetor solar, reduzir atividades físicas nos horários mais quentes e buscar ambientes ventilados.
Cãibras, tontura, fadiga e náuseas indicam desidratação; sinais graves, como confusão mental, convulsões ou dor no peito, exigem atendimento imediato. Especialistas destacam que a prevenção do AVC depende tanto de cuidados individuais quanto de políticas públicas e informação acessível.
Veja também: O que é e como se forma uma onda de calor extremo?
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