A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é uma modalidade que há décadas busca garantir o direito de aprender àqueles que, por diferentes motivos, não concluíram a escola na idade adequada. Agora, um estudo inédito mostra que ela também é um caminho direto para melhorar a renda, ampliar as oportunidades de emprego e reduzir desigualdades sociais no Brasil.
Segundo a pesquisa, encomendada pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com a Unesco, concluir etapas da EJA pode aumentar em até 16% a renda dos estudantes e elevar significativamente a chance de conseguir uma vaga formal e de qualidade no mercado de trabalho. O levantamento foi apresentado nesta quarta-feira (10) no Seminário Nacional de Educação de Jovens e Adultos: 1º Ano do Pacto EJA.
Educação e impacto econômico
Encomendado pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com a Unesco, o levantamento traz evidências inéditas sobre o retorno econômico da EJA. A análise avaliou como a alfabetização e a conclusão do ensino fundamental e médio impactam a vida dos estudantes que retomam os estudos após a idade regular. Os resultados são expressivos:
• Alfabetização (AJA): renda cresce em média 16,3% entre 18 e 60 anos, chegando a 23% no grupo de 46 a 60 anos. A formalização aumenta em 7,7 pontos percentuais (pp) e as ocupações de qualidade em 2,3 pp.
• Ensino fundamental (anos finais): renda sobe em média 4,6%, com destaque para jovens de 26 a 35 anos (14,9%). Há crescimento de 6,6 pp na formalização e de 3,2 pp em empregos de qualidade.
• Ensino médio: conclusão eleva a renda em 6%, em média, para adultos entre 18 e 60 anos. No grupo de 26 a 35 anos, o aumento chega a 10%. A formalização cresce em 9,4 pp e as ocupações de qualidade em 3,3 pp.
Quem pode participar da EJA?
A EJA é parte da educação básica e funciona como uma oportunidade para jovens e adultos retomarem os estudos em uma trajetória mais rápida do que o ensino regular. Para ingressar, é preciso ter idade mínima de 15 anos no ensino fundamental e 18 anos no médio. Na alfabetização (AJA), a partir dos 15 anos já é possível participar.
Embora o acesso à educação formal no Brasil tenha avançado, a taxa de atendimento no ensino fundamental chegou a 96,7% em 2010, contra 75,5% em 1991, ainda persistem altos índices de reprovação e evasão. O resultado é que muitos deixam a escola antes da conclusão. Em 2023, por exemplo, 35 em cada 100 jovens não haviam concluído o ensino médio até os 20 anos.
Transformação social
A pesquisadora Fabiana de Felicio, autora do estudo, destaca que os efeitos da EJA vão muito além do aumento de renda.
“Os expressivos contingentes de pessoas aptas a cursar a alfabetização e as etapas da EJA, somados aos retornos econômicos positivos identificados, indicam um vasto potencial para a expansão dessas modalidades de ensino. Os ganhos ao longo da vida parecem ser suficientes para justificar os custos de curto prazo do retorno aos estudos, especialmente para os grupos de idade mais jovens”, aponta.
Ela ressalta ainda que a modalidade deve ser vista como uma estratégia de desenvolvimento socioeconômico, já que gera impacto direto na produtividade, na redução da pobreza e na diminuição das desigualdades regionais.
Pacto EJA e os desafios
O estudo foi divulgado em meio às ações do Pacto Nacional de Superação do Analfabetismo e Qualificação de Jovens e Adultos, criado pelo MEC em 2023. O programa prevê 3,3 milhões de novas matrículas até 2027, com oferta integrada à educação profissional e investimento de R$ 4 bilhões em quatro anos.
Apesar dos avanços, o desafio é enorme. De acordo com a Pnad Contínua (IBGE), o Brasil ainda tem 9,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais não alfabetizadas, o que equivale a 5,3% da população nessa faixa etária. Grande parte desse público vive em áreas rurais, pertence a grupos historicamente excluídos da escola e enfrenta barreiras como falta de tempo, distância das unidades de ensino e necessidade de conciliar estudo com trabalho.
Por que investir em EJA importa
Especialistas defendem que expandir a EJA é fundamental para alcançar as metas educacionais do país e para o desenvolvimento econômico. Ao permitir que mais pessoas concluam a educação básica, a modalidade eleva a escolaridade média da população, fator diretamente ligado à produtividade, ao acesso ao ensino superior e à mobilidade social.
O fortalecimento da EJA contribui para quebrar ciclos intergeracionais de exclusão: adultos que concluem seus estudos tendem a valorizar mais a educação dos filhos, criando um efeito positivo que se reflete em toda a comunidade. Como reforça o estudo, educar jovens e adultos é mais do que corrigir uma falha do passado, é construir um futuro mais justo, produtivo e igualitário para o Brasil.
Veja também: Brasil registra alta no índice nacional de alfabetização
Retomada dos estudos com ajuda do Educa Mais Brasil
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