O acesso à educação de qualidade até 2030 é um dos grandes compromissos firmados pela comunidade internacional dentro da Agenda 2030 da ONU. O quarto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS 4) prevê garantir ensino inclusivo, equitativo e de qualidade para todos.
O mais recente relatório da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) lança um alerta preocupante: sem professores, essa meta pode não sair do papel. De acordo com o estudo, publicado em português e espanhol em julho de 2025, o mundo precisará de mais de 44 milhões de novos docentes apenas para atender à educação básica até 2030.
A comparação ajuda a dimensionar o problema: seria necessário mobilizar praticamente toda a população da Argentina (45 milhões de habitantes) para ocupar as salas de aula do planeta.
Milhões de alunos ainda fora da escola
O relatório aponta outro dado alarmante: 251 milhões de crianças e adolescentes ainda estão fora da escola. Esse número evidencia que, além da necessidade de ampliar o acesso, é urgente assegurar infraestrutura e profissionais preparados para garantir que quem estuda realmente aprenda.
Sem professores qualificados e em número suficiente, os sistemas educacionais ficam sobrecarregados, com salas lotadas, ensino fragmentado e altos índices de evasão escolar.
Déficit global e desigualdades regionais
O problema da escassez docente não é homogêneo. A maior parte da demanda está concentrada no ensino secundário, que responde por 70% do déficit. A situação mais crítica é a da África Subsaariana, que sozinha precisará de 15 milhões de novos professores até 2030.
Na América Latina e Caribe, a necessidade é de 3,2 milhões de docentes, o que equivale a 41 estádios do Maracanã cheios. A maior parte dessas vagas se refere à substituição de profissionais que abandonam a carreira em razão de baixa remuneração, sobrecarga de trabalho e falta de reconhecimento social.
As causas da evasão docente
O relatório da Unesco destaca que até 40% dos professores deixam a profissão nos primeiros cinco anos de atuação, um índice que revela o quanto a carreira perdeu atratividade. Entre as causas estão:
• Baixos salários em comparação a profissões de nível similar.
• Condições precárias de trabalho, como falta de materiais e turmas superlotadas.
• Falta de reconhecimento social, com a docência muitas vezes tratada como profissão “menor”.
• Contratação emergencial de profissionais não qualificados, que enfraquece a qualidade do ensino.
• Desigualdades de gênero: homens pouco presentes na educação infantil e mulheres sub-representadas em áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), especialmente em cargos de liderança.
Esses fatores criam um ciclo de desmotivação que compromete tanto a entrada de novos professores quanto a permanência dos atuais.
Unesco lança estratégia regional
Durante o Fórum dos Países da América Latina e do Caribe sobre o Desenvolvimento Sustentável 2025, em Santiago (Chile), a Unesco lançou a Estratégia Regional Docente 2025-2030. O plano busca fortalecer políticas públicas, ampliar a formação inicial e continuada de professores e estimular a cooperação internacional.
A proposta também prevê um Fundo Global para Salários de Professores, além de ações para melhorar condições de trabalho, salários e reconhecimento profissional. A diretora-geral da Unesco reforçou que sem professores não existe educação de qualidade e que, portanto, o investimento na carreira docente deve ser prioridade em todos os países.
O risco de apagão no Brasil
No Brasil, a preocupação é crescente. Um estudo do Instituto Semesp, publicado em 2022, projetou que, até 2040, o país poderá enfrentar um apagão de professores, com um déficit de 235 mil profissionais da educação básica. Os motivos são semelhantes ao cenário global:
• Desinteresse dos jovens pelas licenciaturas: entre 2010 e 2020, caiu quase 10 pontos percentuais a participação de estudantes com até 29 anos nos cursos de formação de professores.
• Envelhecimento da categoria: o número de docentes com mais de 50 anos cresceu 109% entre 2009 e 2021.
• Evasão universitária: nas licenciaturas a distância, que se tornaram predominantes no país, 1 em cada 3 alunos abandona a graduação antes de concluir.
• Baixa valorização da carreira, marcada por salários inferiores à média nacional de profissionais com nível superior.
Esses fatores indicam que, caso não haja medidas urgentes, o Brasil pode comprometer o futuro de milhões de estudantes.
Caminhos para enfrentar a crise
A Unesco recomenda seis eixos de ação para transformar a carreira docente e reverter o cenário:
1. Políticas integradas de valorização com envolvimento dos professores.
2. Uso de dados e evidências para planejamento e mobilidade docente.
3. Formação inicial e continuada colaborativa, liderada por professores.
4. Melhoria das condições de trabalho, com salários atrativos e equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
5. Financiamento adequado, com investimento mínimo de 6% do PIB e 20% do orçamento público na educação.
6. Fortalecimento da cooperação internacional, com apoio técnico e financeiro.
Professores como protagonistas do futuro
O relatório da Unesco reforça que os docentes são fundamentais para liberar o potencial de cada estudante e que nenhum país conseguirá cumprir o ODS 4 sem investir nesses profissionais.
A crise global da escassez de professores não é apenas um problema educacional, trata-se de um desafio social, econômico e civilizatório. Sem professores, não há educação, e sem educação, não há desenvolvimento sustentável.
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