As escolas de ensino médio em tempo integral registraram queda no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal indicador da qualidade da educação no Brasil. O dado foi identificado em uma pesquisa realizada por economistas do Insper e chama atenção por interromper uma trajetória de crescimento observada nos últimos anos.
Entre 2019 e 2023, o Ideb das escolas integrais passou de 4,51 para 4,44 pontos. No mesmo período, o índice das escolas que não adotam esse modelo aumentou de 4,13 para 4,21 pontos, reduzindo a diferença entre as duas modalidades.
O resultado representa uma mudança importante porque, historicamente, as escolas de tempo integral costumavam apresentar desempenho superior no indicador.
Pesquisa aponta possíveis explicações
O estudo foi desenvolvido pelos economistas Ricardo Paes de Barros e Laura Müller Machado, do Insper, que analisaram diferentes fatores capazes de influenciar esse cenário.
Uma das hipóteses é que parte das escolas de tempo parcial tenha incorporado práticas pedagógicas que antes eram mais comuns no ensino integral, como o acompanhamento mais próximo dos estudantes e uma organização curricular diferenciada. Isso pode ter contribuído para a melhora dos resultados dessas instituições.
Os pesquisadores também consideram que mudanças no perfil das escolas que passaram a oferecer ensino integral podem ter influenciado os indicadores, sem que isso esteja diretamente relacionado ao modelo de jornada ampliada.
Pandemia pode ter reduzido vantagens do ensino integral
Outro aspecto destacado pela pesquisa é o impacto da pandemia de Covid-19. Segundo os autores, a interrupção das aulas presenciais e os desafios enfrentados pelas redes de ensino podem ter reduzido parte dos benefícios que costumavam diferenciar as escolas de tempo integral.
Além disso, o estudo sugere que alguns componentes pedagógicos responsáveis pelos bons resultados da modalidade podem estar perdendo força nas escolas já existentes ou não estarem sendo implementados com a mesma qualidade nas unidades mais recentes.
Mais tempo na escola não garante melhores resultados
Para os pesquisadores, os dados não indicam que o ensino integral deixou de ser uma estratégia importante para a educação brasileira. O levantamento mostra, porém, que ampliar a permanência do estudante na escola, por si só, não é suficiente para melhorar o desempenho.
A qualidade das práticas pedagógicas, a formação dos professores, a gestão escolar e o uso do tempo adicional continuam sendo fatores decisivos para que o modelo alcance os resultados esperados.
Estudo avaliou cerca de 16 mil escolas
A pesquisa analisou aproximadamente 16 mil escolas, o equivalente a 55% das instituições de ensino médio do país. Foram consideradas escolas estaduais urbanas, presenciais e com pelo menos uma turma da etapa final do ensino médio regular. As escolas exclusivamente técnicas e as escolas normais ficaram de fora da amostra.
Apesar da queda observada no Ideb, os autores defendem que o ensino integral continua sendo uma política relevante. O desafio, segundo eles, é garantir que a expansão da modalidade seja acompanhada de investimentos na qualidade do ensino, para que o tempo adicional na escola se converta em melhores oportunidades de aprendizagem.
O que é educação integral?
A educação integral no Brasil é uma proposta que visa promover o desenvolvimento humano em todas as dimensões, intelectual, física, afetiva, social e cultural, por meio de currículos integrados, espaços ampliados e participação da comunidade escolar. Não se reduz à ampliação da jornada escolar, embora o ensino em tempo integral seja uma das estratégias adotadas para viabilizar esse modelo pedagógico.
O Programa Escola em Tempo Integral, instituído pela Lei nº 14.640/2023, prevê investimentos de R$¿4 bilhões até 2026, com o objetivo de adicionar 3,2 milhões de matrículas de tempo integral em toda a educação básica.
Leia também: MEC quer levar escolas integrais a todo o país até 2026
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