Mudanças na rotina familiar, troca de escola, dificuldade para fazer amigos ou episódios de bullying costumam ser encarados como situações passageiras da infância. No entanto, novas evidências científicas indicam que essas experiências podem deixar marcas mais profundas e influenciar a saúde mental na adolescência.
Um estudo internacional publicado em 2024 no The Journal of Child Psychology and Psychiatry acompanhou cerca de 11,7 mil jovens ao longo de três anos, sendo 2.010 do Brasil e 9.746 do Reino Unido.
Os resultados mostram que vivências como mudança de cidade, separação dos pais, novos arranjos familiares ou problemas de socialização podem estar associadas ao aumento do risco de ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais alguns anos depois, especialmente quando não há apoio adequado quando a criança enfrenta esses desafios.
Fatores de risco funcionam como sinais de atenção
Os pesquisadores destacam que esses eventos não determinam, por si só, o desenvolvimento de transtornos mentais. Eles atuam como sinais de alerta, indicando a necessidade de maior cuidado e acompanhamento ao longo do crescimento.
Em situações que não podem ser evitadas, como uma mudança de cidade ou a reorganização da família, o suporte emocional contínuo de familiares, educadores e da comunidade se torna ainda mais importante.
Diferenças culturais e impacto do bullying
Ao analisar adolescentes de dois países diferentes, o estudo identificou semelhanças e particularidades culturais. O bullying apareceu como um fator relevante tanto no Brasil quanto no Reino Unido, seja ao sofrer ou praticar agressões. No entanto, os impactos sobre a saúde mental foram mais intensos entre os jovens britânicos.
Entre os adolescentes brasileiros, outro ponto de atenção foi o tamanho da família, que se mostrou associado a maior risco emocional em determinados contextos. Esses dados ajudam a compreender como fatores sociais e culturais influenciam o bem-estar dos jovens.
Solidão juvenil preocupa especialistas
Os fatores identificados pelo estudo dialogam com um tema que tem mobilizado pesquisadores em todo o mundo: a solidão entre jovens. Mais do que um sentimento isolado, ela tem sido apontada como um marcador importante da gravidade de quadros de ansiedade e depressão.
Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), adolescentes e jovens adultos estão entre os grupos mais afetados pela solidão, especialmente em países de baixa e média renda. Entre pessoas de 13 a 29 anos, de 17% a 21% relatam se sentir solitárias, com índices ainda maiores na adolescência.
Vínculos sociais como estratégia de prevenção
Fortalecer vínculos sociais é apontado como uma das principais estratégias para a promoção da saúde mental. Além do apoio institucional e familiar, a convivência entre pares tem papel fundamental nesse processo.
Amigos próximos costumam perceber primeiro mudanças de comportamento, como isolamento progressivo, dificuldade de comunicação e afastamento das atividades sociais. Respostas cada vez mais curtas, demora excessiva para interagir ou a redução da circulação fora de casa podem ser sinais de que algo não vai bem.
Como identificar e tratar a depressão na adolescência
Reconhecer a depressão na adolescência nem sempre é simples, já que essa fase envolve transformações emocionais e comportamentais naturais. Ainda assim, quando sinais como tristeza persistente, desânimo, isolamento ou queda no rendimento escolar se mantêm, é fundamental buscar ajuda especializada.
O diagnóstico deve ser feito por um profissional de saúde mental, que poderá indicar o tratamento mais adequado. Quando não tratada, a depressão pode impactar diferentes áreas da vida do adolescente, incluindo os estudos, os relacionamentos familiares e sociais, além de aumentar o risco de abuso de álcool e drogas.
O tratamento costuma envolver acompanhamento médico, com uso de medicamentos quando indicado, aliado à psicoterapia. O apoio da família é essencial durante todo o processo, assim como o diálogo aberto e sem julgamentos. Para pais e responsáveis, buscar orientação psicológica também pode ser uma forma importante de aprender a lidar com a situação e oferecer o suporte necessário.
Ao destacar a relação entre experiências da infância e a saúde mental na adolescência, o estudo reforça a importância de olhar com mais atenção para o desenvolvimento emocional desde cedo, um cuidado que pode fazer diferença ao longo de toda a vida escolar e pessoal dos jovens.
Leia também: Escolas e saúde mental: como apoiar crianças e adolescentes?
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