Nos últimos anos, a indústria da moda intensificou o discurso sobre sustentabilidade, usando termos como eco-friendly, slow fashion e ESG em campanhas e relatórios. A estratégia responde a um consumidor mais atento ao impacto socioambiental das roupas. No entanto, um novo levantamento mostra que esse compromisso ainda está distante da prática.
Mesmo com o avanço do consumo consciente, grande parte das marcas mantém cadeias produtivas pouco transparentes, uso intensivo de recursos naturais e poucas informações sobre seus processos. A distância entre promessa e execução lança dúvidas sobre a credibilidade do discurso sustentável no setor.
Estudo aponta índice de transparência estagnado
Na principal pesquisa do país voltada à divulgação de informações sociais e ambientais na moda, o Índice de Transparência Moda Brasil, desenvolvido pelo Instituto Fashion Revolution Brasil, avaliou 60 grandes empresas do setor. A pontuação média foi de 24%, um índice considerado baixo diante dos desafios ambientais atuais.
Mesmo sendo a segunda indústria que mais polui no mundo, atrás apenas do setor petrolífero, a moda brasileira demonstra pouquíssimos avanços. Apenas duas marcas, Renner e Youcom, alcançaram destaque, com 74% de transparência.
Entre os dados mais críticos, 27 empresas não divulgaram informações básicas sobre emissões de gases de efeito estufa, uso de energia renovável ou medidas de proteção aos trabalhadores. A poucos anos do prazo do Acordo de Paris, o setor ainda não age com a urgência exigida para reduzir danos ambientais e sociais. Os números revelam a necessidade de mudanças estruturais.
Principais falhas ambientais identificadas
Emissões de carbono
O estudo mostra que apenas 37% das marcas reportam emissões de carbono, que representam 96% da pegada ambiental da moda. Entre as poucas que divulgam, o volume já chega a 59,3 milhões de toneladas de CO2, mais do que as emissões anuais de Portugal. Apenas 27% possuem metas chanceladas pela Science Based Targets Initiative.
Desmatamento
Quase 90% das empresas não apresentam progresso mensurável, e 80% não têm prazos públicos para zerar o desmatamento.
Energia renovável
A adoção de energia limpa também é limitada: poucas marcas publicam dados precisos e muitas ainda dependem de carvão importado, gás natural e biomassa.
Condições de trabalho e rastreabilidade
A transparência sobre condições de trabalho permanece mínima. 65% das marcas não divulgam ações relacionadas à transição justa, e menos de um quarto consegue rastrear suas matérias-primas de ponta a ponta. Sem dados sólidos, metas verificáveis e ações inclusivas, o setor tende a manter padrões que o colocam entre os mais poluentes do planeta.
Por que o setor permanece atrasado?
O peso do fast fashion
O modelo dominante continua sendo o fast fashion, baseado em coleções rápidas, produção barata e alta rotatividade. Roupas são usadas, em média, menos de cinco vezes, enquanto peças de alta durabilidade podem chegar a cinquenta usos. Isso gera quatro vezes mais emissões por peça.
A produção global aumentou drasticamente: hoje, o mundo fabrica cerca de 100 bilhões de peças por ano, o dobro do que era em 2000. No Brasil, são 6 bilhões de peças anuais, equivalente a 190 peças por segundo.
O uso reduzido e o descarte acelerado fazem com que 80% dos resíduos têxteis sejam incinerados, aterrados ou abandonados em lixões. Menos de 1% é reciclado em novos tecidos, devido a barreiras tecnológicas e fiscais.
Falta de regulação e fiscalização
No Brasil, não há uma legislação federal que obrigue as empresas a divulgarem indicadores ambientais ou a adotar padrões mínimos de reciclagem. Sem regras claras, práticas poluentes continuam sem consequências.
Custos e resistência corporativa
Tecnologias limpas, fibras orgânicas, sistemas de rastreabilidade e certificações elevam custos, levando muitas marcas a priorizarem a estética do “marketing verde”, ou greenwashing, em detrimento de mudanças reais e profundas.
Greenwashing e o dilema da confiança
A sustentabilidade se tornou uma forte ferramenta de marketing, mas quando as ações não acompanham o discurso, surge o risco de descrédito. Especialistas afirmam que grande parte das empresas continua promovendo estratégias de greenwashing, como coleções “ecológicas” lançadas paralelamente a grandes produções de baixo custo.
A crítica feita pela estilista Vivienne Westwood, em 2010, “Parem de comprar roupas”, nunca foi tão atual. Desde então, a produção global só aumentou, enquanto os impactos sociais e ambientais se intensificam.
Um setor com urgência de transformação
As conclusões do levantamento mostram que a moda brasileira avança lentamente em indicadores essenciais para o clima e para os direitos humanos. Falta transparência, metas robustas e ações efetivas que respondam à crise ambiental. Sem mudanças estruturais, desde o design até o descarte, o setor continuará incompatível com as metas globais e com a expectativa de consumidores cada vez mais conscientes.
Veja também: 7 livros para praticar a moda sustentável
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