Sete em cada dez brasileiros que já frequentaram o ensino superior fizeram todo o ensino médio em escolas públicas. O dado é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de Educação 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e aponta para a presença majoritária de egressos da rede pública nas universidades do país.
Os números são um reflexo direto de políticas públicas de inclusão, como o sistema de cotas, o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A pesquisa considera não apenas os que estavam matriculados em cursos superiores em 2024, mas todas as pessoas que, em algum momento, ingressaram nesse nível de ensino, mesmo sem necessariamente ter concluído.
Comparativamente, apenas duas em cada dez pessoas que frequentaram o ensino superior são oriundas da rede privada. A predominância da rede pública também se mantém nas etapas mais avançadas da formação acadêmica: quase seis em cada dez alunos de pós-graduação (especialização, mestrado ou doutorado) estudaram o ensino médio em escolas públicas.
Ensino superior em alta, mas ainda desigual
A PNAD Educação 2024 também mostra um avanço na escolarização da população adulta: a proporção de pessoas com 25 anos ou mais que concluíram o ensino superior chegou a 20,5%, o maior índice desde o início da série histórica, em 2016. Em 2023, esse percentual era de 19,7%.
Entre os destaques positivos, está o aumento da presença de estudantes pretos e pardos em cursos superiores, tanto tecnológicos quanto tradicionais. No entanto, a desigualdade racial persiste: brancos ainda são maioria nas universidades, e a taxa de frequência líquida no ensino superior (ou seja, entre jovens de 18 a 24 anos que estão na universidade na idade adequada) é mais alta entre brancos (37,4%) do que entre pretos e pardos (20,6%).
A média nacional é de 27,1%, número que segue abaixo da meta de 33% estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE) para 2024. A escolaridade média das pessoas brancas (11 anos) continua superior à de pretos e pardos (9,4 anos). Mulheres também seguem com maior escolaridade média (10,3 anos) do que os homens (9,9 anos).
Desigualdades começam na infância
Os desafios estruturais da educação brasileira começam já na primeira infância. A taxa de atendimento na pré-escola (crianças de 4 a 5 anos) está em 93,4%, ainda abaixo da meta de universalização prometida desde 2016. Para crianças de 0 a 3 anos, o déficit de vagas em creches é ainda mais expressivo, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
No Distrito Federal, os dados mostram uma realidade contrastante: a taxa de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais é a menor do país (1,8%), contra uma média nacional de 5,3%. Já a taxa de escolarização de crianças de 0 a 5 anos no DF subiu para 58,2%, embora tenha havido queda no atendimento às crianças de 4 a 5 anos (de 94,1% para 92,6%).
Jovens desconectados e exclusão educacional
Apesar dos avanços, o levantamento evidencia um cenário preocupante entre os jovens de 14 a 29 anos: 8,7 milhões não concluíram o ensino médio, seja por abandono escolar ou por nunca terem frequentado essa etapa. Os motivos principais incluem a necessidade de trabalhar (42%), a falta de interesse (25,1%) e, no caso das mulheres, a gravidez (23,4%).
Quase 10% das jovens mulheres afirmaram ter deixado os estudos para cuidar da casa ou de familiares. Outro dado que acende um alerta: 18,5% dos jovens de 15 a 29 anos estavam fora da escola e do mercado de trabalho em 2024, os chamados "nem-nem". Em 2023, esse percentual era de 19,8%.
Outros destaques da PNAD Educação 2024
• A taxa de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais recuou para 5,3% em 2024, o menor índice já registrado.
• A proporção de brasileiros com 25 anos ou mais que concluíram pelo menos o ensino médio chegou a 56%, avanço expressivo frente aos 46,2% de 2016.
• Em 2024, o número médio de anos de estudo das mulheres segue superior ao dos homens: 10,3 contra 9,9 anos.
Caminhos para o futuro
Os dados da PNAD Educação 2024 traçam um retrato de avanços importantes, especialmente no acesso ao ensino superior por alunos da rede pública. No entanto, as desigualdades raciais, de gênero, regionais e socioeconômicas ainda moldam profundamente o panorama educacional brasileiro.
Para especialistas, é preciso não apenas manter, mas ampliar as políticas públicas que vêm permitindo esse avanço. Ao mesmo tempo, é urgente investir nas etapas iniciais da educação, garantir permanência escolar e enfrentar os fatores que afastam os jovens da sala de aula. Afinal, a inclusão real começa antes da universidade e passa por oportunidades concretas desde os primeiros anos de vida.
Veja também: Educação no Brasil: ranking das cidades com mais pessoas com ensino superior
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