Imagine um jovem que deixa de encontrar os amigos, para de frequentar a escola ou a faculdade e passa a maior parte do dia dentro do quarto. Com o tempo, sair de casa se torna cada vez mais difícil e as telas passam a ser praticamente sua única ligação com o mundo. Esse comportamento tem nome: hikikomori.
O fenômeno é marcado por um isolamento social intenso e prolongado e vem chamando a atenção de especialistas em saúde mental, principalmente quando aparece entre adolescentes e adultos jovens.
O termo surgiu no Japão e pode ser traduzido, de forma livre, como “isolado em casa”. Embora tenha sido descrito inicialmente no país, casos já foram observados em diferentes partes do mundo.
Quando ficar em casa deixa de ser apenas uma escolha?
O hikikomori vai além de gostar de ficar sozinho. O jovem pode permanecer isolado por semanas, meses ou até anos, reduzindo o contato com familiares e amigos e abandonando atividades presenciais.
O fenômeno vem ganhando atenção da psiquiatria e foi discutido no congresso Encéphale 2026, na França. No Japão, estima-se que atinja entre 1% e 2% dos adolescentes, enquanto faltam dados sobre sua ocorrência em outros países.
Hikikomori é uma doença?
Apesar de ser chamado de síndrome, o hikikomori ainda não possui uma classificação própria em manuais como a Classificação Internacional de Doenças (CID) e o DSM-5. Isso significa que o profissional precisa avaliar cada caso individualmente e investigar se o isolamento está relacionado a outras condições.
A literatura médica costuma dividir o fenômeno em duas apresentações:
- Primária: quando o isolamento aparece sem associação com outro transtorno psiquiátrico.
- Secundária: quando está relacionado a condições como depressão, ansiedade, fobia social, esquizofrenia ou transtornos do neurodesenvolvimento.
Por isso, o diagnóstico pode ser complexo. O mesmo comportamento de isolamento pode ter origens diferentes.
O que faz um jovem se afastar do mundo?
Não existe uma causa única para o hikikomori. O quadro pode envolver uma combinação de fatores psicológicos, sociais e familiares. Baixa autoestima, dificuldade de socialização, bullying, traumas na infância e conflitos familiares estão entre os fatores que podem contribuir para o isolamento.
Também podem existir situações relacionadas ao desempenho escolar e às expectativas da sociedade. Para alguns jovens, afastar-se pode parecer uma maneira de escapar de cobranças, frustrações ou experiências sociais consideradas difíceis.
Características associadas ao transtorno do espectro autista (TEA) ou ao TDAH também podem estar presentes em determinados casos.
As telas causam o hikikomori?
Essa é uma das questões mais complexas quando o assunto é o isolamento dos jovens. A internet, os jogos e as redes sociais podem facilitar a permanência em casa. Afinal, é possível estudar, trabalhar, conversar, jogar e consumir entretenimento sem precisar sair do quarto.
Mas as telas também podem ser consequência do isolamento. Quando o contato presencial diminui, o ambiente virtual pode se tornar a principal forma de interação. Por isso, mais importante do que contar quantas horas o jovem passa conectado é observar o impacto desse comportamento na vida cotidiana.
Quais sinais não devem ser ignorados?
O isolamento costuma acontecer de maneira gradual. Por isso, algumas mudanças podem ser percebidas apenas depois de bastante tempo. Entre os sinais de alerta estão:
• Afastamento progressivo de amigos e familiares;
• Perda de interesse por atividades presenciais;
• Abandono ou dificuldade de manter estudos;
• Alterações no sono;
• Irritabilidade;
• Aumento significativo do tempo online;
• Dificuldade para sair de casa e retomar compromissos.
É importante destacar que ser introvertido ou gostar de ficar sozinho não significa ter hikikomori. A preocupação aumenta quando o isolamento é persistente e começa a prejudicar os estudos, relacionamentos, trabalho e outras áreas da vida.
Como ajudar um jovem que está se isolando?
O tratamento varia conforme as causas e as necessidades de cada jovem. A psicoterapia pode ajudar a compreender os motivos do isolamento e trabalhar, de forma gradual, a retomada da convivência. Em alguns casos, medicamentos também podem ser indicados.
A família tem papel importante nesse processo. Em vez de pressionar por mudanças imediatas, o acolhimento e o diálogo podem facilitar a reconstrução dos vínculos. Mais do que exigir que o jovem saia do quarto, é fundamental entender o que está por trás do isolamento.
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