A pós-graduação brasileira está mudando de perfil. Enquanto os doutorados avançam, os mestrados enfrentam retração e queda na procura. O cenário também é marcado pelo crescimento das instituições privadas e pela expansão do ensino a distância.
Os dados mais recentes do Mapa do Ensino Superior no Brasil, publicado pelo Instituto Semesp em 2026, mostram que o número de doutorados cresceu quase 16%. A rede privada teve papel importante nesse resultado, com alta de 34,6%, enquanto as instituições públicas registraram crescimento de 11,6%.
Já o mestrado seguiu na direção oposta. A retração foi de 6,7%, influenciada principalmente pela queda de 15,6% nas universidades públicas. No setor privado, porém, houve aumento de 9,25%.
EAD ganha espaço na pós-graduação
A expansão não acontece apenas na oferta de cursos. O ensino a distância também vem conquistando espaço na pós-graduação stricto sensu. Segundo o levantamento, a modalidade já reúne 28,4% dos mestrandos e 17,6% dos doutorandos no país.
A mudança acompanha uma busca por formatos mais flexíveis de formação, mas acontece em meio a um desafio maior: manter o interesse dos estudantes pela carreira acadêmica e garantir boas condições para a formação de pesquisadores.
Doutorado direto pode explicar crescimento
Uma das razões apontadas para o avanço do doutorado é o crescimento do chamado doutorado direto. Nesse modelo, estudantes com uma trajetória consistente de iniciação científica podem seguir da graduação diretamente para o doutorado.
Para Sergio Lazzarini, vice-presidente acadêmico do Insper, a alternativa faz sentido principalmente para quem pretende seguir carreira acadêmica. A presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho, também defende que uma iniciação científica mais longa pode preparar o aluno para ingressar diretamente no doutorado.
Na prática, a mudança pode encurtar o caminho de estudantes que já chegam ao fim da graduação com experiência em pesquisa e publicações científicas.
Rede privada amplia participação
O crescimento dos doutorados também revela uma mudança na própria estrutura da pós-graduação brasileira. Durante muito tempo, esses cursos ficaram concentrados nas universidades públicas. Agora, as instituições privadas ampliam sua participação.
A oferta de vagas de doutorado na rede particular cresceu 34,6%. Como a presença do setor privado nesse segmento ainda é menor do que a da rede pública, o crescimento proporcional tende a ser mais expressivo.
Outro fator destacado no levantamento é a distribuição de bolsas. Nos últimos cinco anos, a Capes passou a conceder proporcionalmente mais bolsas de doutorado do que de mestrado.
Procura por cursos preocupa
Apesar do crescimento dos doutorados, os dados também revelam um problema que atinge a pós-graduação há alguns anos: a dificuldade de atrair novos estudantes.
Informações da proposta do Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) mostram que cerca de 25% dos cursos de mestrado analisados em 20 áreas do conhecimento tiveram procura inferior ao número de vagas disponíveis. No doutorado, pelo menos 12 áreas registraram queda na demanda, que pode superar 30% em alguns casos.
A Plataforma Sucupira também identificou ociosidade. Em 2020, 21% das vagas de mestrado e 25% das de doutorado não foram preenchidas. Entre 2021 e 2022, o número de ingressantes caiu mais 11%.
Bolsas e mercado de trabalho pesam na decisão
A escolha de seguir uma carreira acadêmica envolve um investimento de tempo considerável. Da educação básica à conclusão do doutorado, são mais de duas décadas de formação.
Nesse percurso, os valores das bolsas, as condições dos laboratórios e as perspectivas profissionais após a formação podem pesar na decisão dos estudantes. A dificuldade de encontrar oportunidades também contribui para a saída de pesquisadores brasileiros em busca de trabalho no exterior.
O desafio, portanto, não termina na formação. É preciso criar condições para que doutores encontrem espaço tanto nas universidades e centros de pesquisa quanto no setor produtivo, especialmente em áreas ligadas à inovação e ao desenvolvimento tecnológico.
Pós-graduação busca um novo equilíbrio
O cenário atual mostra uma pós-graduação em transformação. O doutorado cresce, o mestrado perde espaço e as instituições privadas ganham participação. Ao mesmo tempo, o EAD amplia sua presença e novas alternativas, como o doutorado direto, passam a fazer parte do debate.
Mais do que uma mudança nos números, o movimento levanta uma questão importante para o futuro da pesquisa brasileira: como tornar a carreira acadêmica mais atrativa e garantir que os profissionais formados encontrem oportunidades para aplicar seus conhecimentos?
O fortalecimento da pós-graduação passa por investimentos em bolsas, pesquisa e infraestrutura, mas também pela criação de caminhos profissionais capazes de absorver os pesquisadores formados no país.
Veja também: Capes estabelece novas diretrizes para cursos de Mestrado e Doutorado
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