Conciliar a rotina acadêmica com os desafios da maternidade ainda é um dos principais obstáculos para milhares de estudantes brasileiras. Um relatório divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) revela que 47,5% das mães e pessoas responsáveis por crianças já precisaram trancar ou abandonar o curso superior, evidenciando as dificuldades para permanecer na universidade.
O levantamento faz parte da Política Nacional de Permanência Materna nas Instituições de Ensino Superior Brasileiras e foi elaborado por um grupo de trabalho formado por representantes do MEC e da sociedade civil, incluindo coletivos de mães universitárias.
Ao todo, a pesquisa ouviu 7.648 pessoas de todas as regiões do país. As mulheres representam 86,52% dos participantes, refletindo que a maior parte da responsabilidade pelos cuidados com os filhos ainda recai sobre elas. A maioria dos respondentes estuda em instituições federais de ensino superior (78,2%), e 62,6% estão matriculados em cursos de graduação.
Principais motivos para a evasão
Os dados mostram que a interrupção dos estudos está diretamente ligada às dificuldades enfrentadas pelas estudantes que conciliam maternidade e vida acadêmica. Entre os fatores mais citados estão a dificuldade para compatibilizar os horários das aulas com os cuidados infantis, o desgaste emocional da maternidade e os problemas financeiros, apontados por 61,7% dos participantes.
Além disso, 55,4% afirmaram sentir falta de apoio das instituições de ensino, enquanto cerca de 60% não recebem qualquer auxílio financeiro institucional para permanecer na universidade.
A pesquisa também revela um cenário de vulnerabilidade econômica. Cerca de 24,1% das famílias vivem com renda de até cinco salários mínimos, enquanto 11,3% declararam não possuir nenhuma renda.
Falta de estrutura dificulta permanência
Mesmo aquelas que conseguem continuar os estudos enfrentam obstáculos diários. Segundo o levantamento, 55,8% das estudantes já precisaram levar os filhos para a universidade para conseguir frequentar as aulas.
No entanto, muitas instituições ainda não oferecem infraestrutura adequada para acolher essas crianças. O relatório aponta que 66,2% das universidades públicas não possuem espaços de apoio, e 50,6% das estudantes afirmaram que seus filhos não têm acesso à alimentação nos restaurantes universitários.
A ausência desses serviços pode comprometer tanto o desempenho acadêmico quanto a permanência das mães no ensino superior.
Cuidadotecas podem ampliar o apoio às mães universitárias
Como parte das ações para reduzir a evasão, o MEC anunciou, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), a criação de um programa integrado ao Plano Nacional de Cuidados.
A iniciativa prevê a implantação de cuidadotecas em até 50 universidades federais nos próximos anos. Os espaços serão destinados ao acolhimento de crianças de 3 a 12 anos durante o período de estudos ou trabalho dos responsáveis, especialmente no turno noturno.
A proposta busca oferecer mais condições para que estudantes, professores, técnicos-administrativos e trabalhadores terceirizados consigam conciliar suas atividades acadêmicas e profissionais com os cuidados familiares, contribuindo para reduzir a evasão e ampliar a permanência no ensino superior.
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