O ensino superior vive uma expansão histórica. Entre 2000 e 2024, o número de universitários no mundo passou de 100 milhões para 269 milhões, mas esse crescimento ainda não garantiu igualdade de acesso e permanência.
Esse é um dos destaques do Higher Education Global Trends Report, estudo inédito divulgado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), que reúne dados de cerca de 150 países.
O relatório analisa temas como financiamento, internacionalização, inteligência artificial e os desafios das universidades diante das transformações sociais e do mercado de trabalho.
Crescimento das matrículas não reduziu as desigualdades
Os dados mostram que mais pessoas estão chegando ao ensino superior, mas nem todas têm as mesmas condições de concluir a graduação. Segundo o levantamento, a taxa de escolarização no ensino superior chega a aproximadamente 80% nos Estados Unidos, enquanto a média mundial é de 43%. Já na África Subsaariana, apenas 9% da população alcança esse nível de ensino.
Em análise publicada no Jornal da USP, a professora Carlota Boto, da Faculdade de Educação da USP, avalia que o relatório apresenta um diagnóstico importante sobre a expansão do ensino superior, mas aprofunda pouco as razões das desigualdades entre países e grupos sociais. Para ela, ampliar o acesso às universidades é apenas parte do desafio, já que a permanência dos estudantes também precisa ser considerada.
Financiamento e mobilidade internacional ganham espaço
O estudo também chama atenção para a necessidade de modelos de financiamento capazes de sustentar o funcionamento das universidades no longo prazo, garantindo recursos para ensino, pesquisa e políticas de assistência estudantil.
Ao mesmo tempo, a internacionalização segue em expansão. Atualmente, mais de sete milhões de estudantes fazem cursos de graduação ou pós-graduação fora de seus países de origem, mostrando que a mobilidade acadêmica continua crescendo em diferentes regiões.
Outro dado que chama atenção é que políticas de cotas raciais e sociais ainda são adotadas por apenas um terço das regiões analisadas pela Unesco. No Brasil, esse tipo de ação é apontado como uma estratégia que ampliou o acesso às universidades públicas sem comprometer a qualidade do ensino.
Inteligência artificial entra definitivamente na pauta
O impacto da inteligência artificial também ocupa espaço no relatório. A Unesco alerta para a necessidade de estabelecer diretrizes éticas para o uso dessas ferramentas no ambiente acadêmico, ao mesmo tempo em que destaca a desigualdade no acesso à internet.
Enquanto 83% da população urbana possui acesso à rede, esse percentual cai para 48% nas áreas rurais, cenário que pode ampliar diferenças no uso de tecnologias educacionais.
O que isso significa para o Brasil?
Embora tenha alcance global, o relatório traz reflexões importantes para o Brasil. Entre elas, estão o fortalecimento do financiamento das universidades públicas e a ampliação de políticas de permanência estudantil, como bolsas, auxílio-moradia e apoio à saúde mental.
A pesquisadora também defende que a incorporação da inteligência artificial deve vir acompanhada da atualização dos currículos e das formas de avaliação, sem deixar de lado a formação humanística e o compromisso social das universidades. Dessa forma, a professora aparece como uma fonte que contextualiza o relatório, mas o protagonismo continua sendo do estudo da Unesco.
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Graduação com bolsa de estudo
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