A saúde mental no ambiente corporativo deixou de ser apenas um tema ligado ao bem-estar e passou a ocupar espaço estratégico dentro das empresas brasileiras.
Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), a gestão de riscos psicossociais passou a exigir atenção direta das lideranças e do setor de Recursos Humanos, que agora assume um papel ainda mais central na prevenção de problemas que impactam produtividade, retenção de talentos e resultados financeiros.
Dados divulgados pela Gupy durante o evento HR4Results 2026 revelam que 58% dos trabalhadores brasileiros já apresentam algum tipo de risco psicossocial, mesmo antes de um diagnóstico clínico formal. O levantamento aponta sinais de ansiedade, estresse e burnout em profissionais de empresas de diferentes portes, indicando que o problema se tornou sistêmico no mercado de trabalho.
Saúde mental pressiona empresas e trabalhadores
O avanço da crise de saúde mental também aparece nos números de afastamentos. Segundo o estudo, o número de benefícios concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social por transtornos mentais e comportamentais saltou de cerca de 200 mil em 2020 para 540 mil no último ano.
O crescimento acende um alerta para empregadores e profissionais. Em muitos casos, os sintomas começam de forma silenciosa e evoluem para quadros mais graves quando não há acompanhamento adequado dentro das organizações. Entre os setores com maior índice de exaustão emocional estão:
• Varejo e atacado: 10,79%
• Educação: 9,87%
• Marketing, publicidade e comunicação: 9,67%
• Hotelaria e restaurantes: 9,55%
Os dados mostram que áreas com alta pressão por desempenho e contato constante com o público tendem a registrar níveis mais elevados de desgaste emocional.
O custo invisível da saúde mental nas empresas
Além do impacto humano, os riscos psicossociais também geram prejuízos financeiros relevantes. O levantamento da Gupy mostra que entre 70% e 90% dos custos relacionados à saúde mental não aparecem diretamente nas despesas médicas. Esses prejuízos estão concentrados em fatores como:
• Absenteísmo
• Presenteísmo
• Queda de produtividade
• Aumento da rotatividade
• Perda de engajamento das equipes
Na prática, isso significa que empresas podem enfrentar perdas significativas sem perceber imediatamente a origem do problema. O reflexo aparece na redução da eficiência operacional e na dificuldade de manter equipes estáveis.
Nova NR-1 amplia responsabilidade do RH
Com a atualização da NR-1, fatores como estresse ocupacional, sobrecarga e esgotamento profissional passam a integrar formalmente a gestão de riscos corporativos. Isso amplia a responsabilidade das empresas e transforma o RH em uma área estratégica para a sustentabilidade do negócio.
Segundo Mariana Dias, CEO da Gupy, a mudança representa uma transformação estrutural no mercado corporativo. “O cuidado com saúde mental e organização do trabalho passa a fazer parte da governança.”
A nova norma exige que as organizações não apenas cumpram exigências legais, mas adotem medidas concretas para identificar riscos, monitorar indicadores e criar ambientes mais seguros para os colaboradores.
Burnout e assédio ampliam o alerta
Outro ponto preocupante identificado pelo relatório é o aumento dos casos de assédio no trabalho. Cerca de 35% das mulheres afirmam já ter sofrido assédio sexual no ambiente profissional, mas apenas 10% relatam formalmente a situação. Entre os principais motivos para a subnotificação estão:
• Medo de retaliação
• Exposição profissional
• Descrença nos canais internos
• Percepção de impunidade
O setor público e organizações do terceiro setor concentram parte expressiva desses relatos, o que reforça a necessidade de políticas internas mais eficazes de prevenção e acolhimento.
RH passa a atuar além do compliance
Diante desse cenário, a gestão de pessoas deixa de ser apenas operacional e passa a ter impacto direto na performance organizacional. A recomendação é que o RH utilize dados para mapear riscos, definir prioridades e implementar ações com resultados mensuráveis.
Mais do que atender uma exigência legal, a nova realidade mostra que investir em saúde mental se tornou uma estratégia para fortalecer a competitividade das empresas e melhorar a experiência dos profissionais no mercado de trabalho.
Com a saúde emocional ganhando espaço na agenda corporativa, a tendência é que empresas que priorizarem ambientes mais saudáveis consigam não apenas reduzir afastamentos, mas também construir equipes mais produtivas e engajadas.
Leia também: NR1 e os riscos psicossociais: o que são e como identificar?
Profissionais que ajudam na nova NR-1
Para cumprir as exigências atualizadas da NR-1, especialmente na gestão de riscos psicossociais, as empresas contam com o apoio de profissionais como técnicos e engenheiros de segurança do trabalho, psicólogos organizacionais, médicos do trabalho, assistentes sociais e equipes de Recursos Humanos.
Esses especialistas ajudam a identificar riscos, implementar ações preventivas e promover um ambiente mais saudável. Com a valorização dessas áreas, investir em qualificação pode abrir boas oportunidades.
Programas como o Educa Mais Brasil oferecem bolsas de estudo que facilitam o acesso à formação necessária para atuar nesse mercado.

