Expressão considerada milenar
A arte plumária é formada por obras de arte e artefatos feitos de penas. Ela é usada principalmente pelas culturas indígenas da América e Oceania.
Essa forma de expressão artística é milenar e tem registros em povos antigos, a exemplo da arte Inca e da arte Maia. Entretanto, considerando o longo período histórico, a arte plumária ficou mais conhecida pela força e simbolismo que apresenta na cultura indígena.
No Brasil, as peças plumárias são objetos de estudos etnológicos e artísticos dos índios. O motivo da busca por esse tipo de conhecimento está na história do país. Diante do contexto, é importante abordar os principais aspectos dessa arte indígena brasileira.
Arte plumária brasileira
Nos primeiros encontros entre índios e europeus, mais precisamente no descobrimento do Brasil, os adornos plumários despertaram o interesse dos exploradores do Velho Mundo.
Como consequência, peças indígenas foram levadas à Europa, prática que durou até o século XIX. Produzidos por integrantes de povos como o Tupinambá, os objetos enviados para o continente europeu eram colares, pulseiras, mantos.
E quando esses objetos foram vistos como arte? As tradições indígenas passaram a despertar mais interesse em meados do século XIX, a partir do Romantismo. Nesse momento, a figura do índio passou a ser usada como símbolo do sentimento nacionalista, resultando nos primeiros estudos sobre o seu folclore.
Além disso, outros fatos históricos contribuíram para o processo de reconhecimento da arte plumária nativa. Com isso, cabe destacar os seguintes acontecimentos:
• No século XX, intelectuais modernistas focaram os olhares para a cultura indígena, mesmo que pelo ponto de vista da cultura branca;
• Europeus também desenvolviam pesquisas no século XX, mas a arte plumária ainda não era vista como tal;
• Em 1983, após ganhar uma sala na Bienal de São Paulo e ser descrita em publicações ensaísticas, a peça plumária nativa passou a ser reconhecida como arte.
Características da arte
A plumária é a atividade artística mais evidente dos índios brasileiros. Ela apresenta características estéticas que têm criação singular, conectadas com ritos e celebrações culturais.
Com uma variedade de formas e riqueza de cores, a plumagem dos pássaros constitui o principal material das peças. É o elemento da natureza que permite aos índios a produção da arte.
Junto com as penas e plumas, outros materiais são aplicados na confecção das peças da arte plumária, muitas usadas para o embelezamento do corpo e preservação de toda uma tradição.

Arte plumária é forma de afirmação e preservação das tradições indígenas. (Foto: Wikipédia)
Do ponto de vista estético, as penas podem ser cortadas ou aparadas em diferentes formatos. Porém, existem povos que apenas utilizam a plumagem na forma e acabamento que são coletados na natureza.
É importante destacar que certas penas podem ser coladas no corpo do índio, além de serem fixadas em furos feitos na orelha, nariz ou lábio. Nesse caso, geralmente a criação estética não é considerada arte, apesar de algumas controvérsias entre os estudos da área.
A partir do pensamento analítico, os objetos plumários podem ser considerados arte quando:
• É aplicado um saber de gerações na elaboração dos objetos;
• Existe o conhecimento cultural sobre a fauna e as suas possibilidades de criação;
• Fica constatada a preocupação com a sensibilidade nas combinações de cores e arranjos de formas.
Em outras palavras, é possível abordar a arte plumária quando o aspecto estético das penas caminha com o esforço pelo virtuoso, criativo, sensível.
Processo de confecção
Ao explorar com habilidade a fauna brasileira, os povos indígenas produzem peças com singulares técnicas e materiais. As suas obras têm exemplos com a utilização de penas longas como a da ema, além das cores vivas das araras.
No processo de confecção dos objetos, a fragilidade das plumas é um desafio vencido por séculos de manuseio do material, acrescido do domínio da técnica de coleta das penas das aves.
Por tradição, o homem tem o costume de coletar e fazer os elementos da arte plumária indígena. A penas são adquiridas por meio da caça de aves ou recolhimento do material biológico de animais cativos.
A elaboração das peças artísticas ainda tem elementos como:
• Uso de repetidas e consolidadas associações de materiais, a exemplo da pena com a fibra natural;
• Combinações cromáticas que buscam efeitos formais ou não, estratégia usada principalmente em rituais e cerimônias;
• Associação da plumária com os traçados ou tecidos usados pelo índio.
Famílias estilísticas
A arte plumária dos índios do Brasil podem ser classificadas em duas grandes famílias estilísticas. A primeira é representada pelos povos do norte do Amazonas, a exemplo dos Apalai, Galibi, Taurepang, Waiwai. Eles têm adornos plumários com armações trançadas e pouco cuidado com o acabamento dos materiais.
Na segunda família estilística estão os grupos Tupi, especialmente os Munduruku e os Urubu. A arte desse grupo tem como principal característica a associação da plumagem com os tecidos.
Ainda na comparação com o primeiro grupo estilístico, existem nesses povos a preocupação com os efeitos das cores e o acabamento da peça, em geral mais flexíveis que os dos povos da primeira família artística.
Vale lembrar que classificar as criações estéticas indígenas é uma tarefa complexa, pois elas não seguem a mecânica de produção das chamadas artes industriais, termo usado para as atividades em que as matérias-primas são transformadas em produtos através de uma tecnologia específica.
Em outros termos, mesmo que referenciada com diferentes esferas culturais, a plumária não perde a característica de ser uma forma de arte pura, cuja a realização tem finalidades utilitárias.
Ela pode servir para a comunicação e organização de um povo, a exemplo das insígnias feitas para os líderes religiosos ou cocais confeccionados para simbolizar o poder de chefes e guerreiros.
Das tradições indígenas, a arte plumária é uma das mais afetadas pelo contato dos índios com o homem branco. Por isso, os atuais adornos plumários são objetos confeccionados para a venda ou troca com os visitantes dos povoados, reduzindo a sua elaboração para os diferentes usos do passado.
O conteúdo simbólico de uma arte feita para rituais e cerimônias, a exemplo das iniciações, também perde força com o processo de interpenetração da cultura indígena com os costumes das sociedades que fazem parte do mundo em globalização.