Forma de arte que transformava o corpo humano em uma “obra viva”
Body Art (em português, “arte do corpo”) foi um estilo artístico que começou em 1960, nos Estados Unidos e Europa, e tinha o corpo como principal expressão artística. Ou seja, a tela foi substituída por corpos humanos, tornando a arte uma “obra viva”.
Essa forma artística diferenciada foi mais uma vertente da arte contemporânea e ia de encontro a todo tipo de arte tradicionalista que era feita até aquele momento. A Body Art, que tem aspectos das culturas primitivas, deixou um legado que existe hoje no cotidiano de alguns povos, além de servir como ferramenta de reflexão da própria arte.
Continua sendo usado também em diversas manifestações artísticas, como no mundo do circo, por exemplo, onde é uma ferramenta quase indispensável.
História
As décadas de 1950 e 1960 foram marcadas por rupturas e novas orientações artísticas, como o Pop Art, que buscava uma aproximação com a realidade urbana e a natureza, além de aspectos tecnológicos. A arte tradicional passou a ser questionada e deixou de se restringir somente ao tipo de pintura clássica e à escultura.
As primeiras experiências com o corpo humano como forma de expressão foram realizadas pelos artistas do surrealismo e dadaísmo. A Body Art passou a se utilizar dessa forma de arte de uma maneira mais intensa, rompendo barreiras e preconceitos por meio de pinturas corporais, assim como era feito na era primitiva.
O grande inspirador da Body Art foi o pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887-1968), que se baseava na premissa de que “tudo pode ser usado como uma obra de arte” e rompeu os limites na maneira de produzir arte.

No mundo do circo, a pintura corporal é uma ferramenta quase indispensável. (Foto: Pixabay)
Características da Body Art
A Body Art se caracterizava, principalmente, na utilização do corpo como principal forma de expressão, veículo portador de atitudes e ideias. Alguns outros aspectos importantes desse movimento artístico foram:
- O corpo tornava-se uma “escultura viva” com o intuito de transmitir a ideia de transformação da vida em arte;
- Ruptura radical com a arte tradicional;
- Tatuagens, queimaduras, ferimentos, mutilações, deformações, maquiagens, tudo isso era usado como forma de arte com o intuito de chocar o expectador e transgredir às normas sociais e tabus;
- Os artistas se utilizam de temas livres de qualquer tipo de preconceito, seja de gênero ou sexualidade, tendo a arte como uma forma de protesto;
- Visava despertar o público com relação a importância da vida e da arte.
Principais artistas
De maneira geral, os artistas que aderiram à Body Art tinham o radicalismo como principal atributo. Conheça um pouco mais sobre os principais nomes desse movimento artístico.
Yves Klein (1928-1962)
O artista francês Yves Klein teve uma carreira marcada por muitas atitudes excêntricas. Considerado um dos precursores da Body Art, ficou conhecido, principalmente, por utilizar corpos femininos nas suas expressões artísticas.
Em 1957, Klein soltou 1.001 balões azuis de hélio em Paris para comemorar a abertura de uma exposição sua. Outro destaque da sua trajetória foi a mostra “Anthropometries of the Blue Epoch”, quando ele, vestido formalmente, comandou três modelos nuas que se cobriram de tinta azul e formaram imagens de seus corpos sobre uma tela em branco ao som da sinfonia de sua autoria “Monotone-Silence” (composta por única nota, tocada por 20 minutos e seguido de mais 20 minutos de silêncio).
Bruce Nauman (1941)
Outro nome importante da Body Art foi o artista americano Bruce Nauman. Suas performances ficaram conhecidas pelo mundo inteiro, assim como suas obras em neon, vídeos e instalações famosas.
Em 1970 usou a seguinte frase para explicar a sua forma de fazer arte: “quero usar o meu corpo como material e manipulá-lo”. Entre as suas principais obras, a “Fonte Refluxo” (1966) utilizava o corpo como forma de expressão. Nela, a modelo cospe jatos de água pela boca em movimentos repetitivos.
Vito Acconci (1940-2017)
Também americano, Vito Acconci abordava em suas composições artísticas a relação entre homem, desejo, sexo e prazer. Muitas de suas obras foram documentadas em fotografias, como a “Seedbed” (1972), onde ele se masturbava escondido debaixo de uma rampa enquanto detalhava aos expectadores suas fantasias eróticas por meio de alto-falantes. Vale destacar também as obras “RubbingPiece” (1970) e “Trappings” (1961).
Piero Manzoni (1933-1963)
O italiano Piero Manzoni foi reconhecido pelo seu radicalismo e por desenvolver obras bastante conceituais. Sua obra mais polêmica foi a “Merded’artista”, em português, “Merda de Artista” (1961) composta por 90 latas que continham suas próprias fezes. Esse trabalho foi exposto em inúmeros museus ao redor do mundo e em 2007, uma dessas latas foi vendida por mais de um milhão de libras.
Também em 1961 realizou diversas exposições de rua quando designava o chamado “pedestal mágico”. De acordo com ele, todas as pessoas que subissem nos pedestais vazios que ele expôs se tornariam uma obra de arte enquanto estivessem ali.
Rudolf Schwarzkogler (1940-1969)
O artista austríaco Rudolf Schwarzkogler também teve uma trajetória artística marcada por obras extremamente mórbidas, consideradas até sadomasoquistas. Mostrava o corpo auto mutilado por meio de fotografias, em ambientes que remetiam a hospitais ou outros com aspectos catastróficos.
Além disso, suas expressões artísticas incluíam defecar em público, ingerir urina e fezes ou ainda vomitar e derramar sangue de animal sobre o público. Ficou conhecido por passar uma ideia de angústia, agonia e medo. Schwarzkogler fez parte também do grupo extremista “Arte e Revolução” juntamente com Herman Nitsch, Otto Mühl e Günter Brus.
Curiosidades
O corpo como forma de expressão artística é algo que existe há muitos anos, antes mesmo das pinturas em paredes. Começou mesmo no período do homem neandertal, quando as pinturas possuíam um significado e eram usadas, principalmente, em algumas celebrações.
Também entre as povos indígenas, a pintura corporal era e continua sendo muito utilizada, representando beleza ou até mesmo preparação para a guerra. Além disso, os desenhos pelo corpo servem para indicar a posição hierárquica do índio na tribo.
A cultura hindu também utiliza a pintura no corpo como uma maneira de manter a tradição. Um exemplo ocorre nas cerimônias de casamento, quando a noiva é pintada com símbolos que representam sorte para a nova vida de casada. Já o sinal vermelho pintado entre as sobrancelhas significa que agora o seu novo estado civil.