Poema romântico de Gonçalves Dias
A Canção do Exílio foi um dos poemas líricos românticos do poeta Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), publicado na sua obra literária “Primeiros Cantos”, em 1857. O poema tornou-se um dos mais conhecidos e emblemáticos durante a primeira fase do Romantismo no Brasil. Conheça o poema Canção do Exílio de Gonçalves Dias, escrito em 1847:
Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá;As aves, que aqui gorjeiam,Não gorjeiam como lá.Nosso céu tem mais estrelas,Nossas várzeas têm mais flores,Nossos bosques têm mais vida,Nossa vida mais amores.Em cismar, sozinho, à noite,Mais prazer encontro eu lá;Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá.Minha terra tem primores,Que tais não encontro eu cá;Em cismar — sozinho, à noite —Mais prazer encontro eu lá;Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá.Não permita Deus que eu morra,Sem que eu volte para lá;Sem que desfrute os primoresQue não encontro por cá;Sem qu'inda aviste as palmeiras,Onde canta o Sabiá.
Análise do poema
A Canção do Exílio foi um poema escrito por Gonçalves quando ele ainda cursava direito na Faculdade de Coimbra (Portugal), no ano de 1847. No país, ele teve contato com as primeiras obras literárias portuguesas, sobretudo, dos poetas e escritores Almeida Garret (1799-1854) e Alexandre Herculano (1810-1877).
A canção é um poema composto por cinco estrofes, sendo três quartetos, com quatro versos e dois sextetos, com seis versos. Nele é possível perceber a admiração e patriotismo que o autor tinha em relação ao Brasil.
Em um dos trechos do poema Gonçalves deixou transparecer um pouco da saudade que sentia do seu país de origem. O sentimento de retornar era tamanho que ele escreveu:
Não permita Deus que eu morra,Sem que eu volte para lá;.
Além disso, na composição do Hino Nacional Brasileiro, realizado em 1822, foi usado dois versos do poema Canção do Exílio. Esse é o trecho do hino:
Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida, (no teu seio) mais amores.
Quem foi Gonçalves Dias?
Gonçalves Dias, além de poeta, foi jornalista e advogado. Ele nasceu no Maranhão na cidade de Caxias, no ano de 1823, e morreu na mesma cidade de origem e 1864.
Em sua carreira literária, Gonçalves se destacou como um grande representante da primeira fase do Romantismo no Brasil, conhecida também como geração indianista ou nacionalista.

Retrato de Gonçalves Dias. (Foto: Wikipedia)
Estilo literário de Gonçalves Dias
Canção do Exílio não foi o único poema escrito por Gonçalves, pois em seu livro ele publicou outros, bem como poesias. Mas, o admirável é que em todas as suas obras ele sempre buscou a perfeição rítmica e formal, com poemas marcados pela rima, musicalidade e métrica.
Gonçalves Dias buscou retratar os negros com respeito, de forma positiva, além de exaltar as belezas naturais do Brasil. Ele gostava de expor sentimentalismo em suas poesias ou fazer abordagens com caráter religioso.
Poemas de Gonçalves Dias
Além de canção do exílio, outros poemas de Gonçalves Dias tiveram destaque durante a sua carreira literária. Conheça alguns deles:
Olhos verdes
Eles verdes são:E têm por usança,na cor esperança,E nas obras não.Camões, Rima.São uns olhos verdes, verdes,Uns olhos de verde-mar,Quando o tempo vai bonança;Uns olhos cor de esperança,Uns olhos por que morri;Que ai de mim!Nem já sei qual fiquei sendoDepois que os vi!Como duas esmeraldas,Iguais na forma e na cor,Têm luz mais branda e mais forte,Diz uma — vida, outra — morte;Uma — loucura, outra — amor.Mas ai de mim!Nem já sei qual fiquei sendoDepois que os vi!São verdes da cor do prado,Exprimem qualquer paixão,Tão facilmente se inflamam,Tão meigamente derramamFogo e luz do coraçãoMas ai de mim!Nem já sei qual fiquei sendodepois que os vi!São uns olhos verdes, verdes,Que podem também brilhar;Não são de um verde embaçado,Mas verdes da cor do prado,Mas verdes da cor do mar.Mas ai de mim!Nem já sei qual fiquei sendoDepois que os vi!Como se lê num espelho,Pude ler nos olhos seus!Os olhos mostram a alma,Que as ondas postas em calmaTambém refletem os céus;Mas ai de mim!Nem já sei qual fiquei sendoDepois que os vi!Dizei vós, ó meus amigos,Se vos perguntam por mim,Que eu vivo só da lembrançaDe uns olhos cor de esperança,De uns olhos verdes que vi!Que ai de mim!Nem já sei qual fiquei sendoDepois que os vi!Dizei vós: Triste do bardo!Deixou-se de amor finar!Viu uns olhos verdes, verdes,uns olhos da cor do mar:Eram verdes sem esp’rança,Davam amor sem amar!Dizei-o vós, meus amigos,Que ai de mim!Não pertenço mais à vidaDepois que os vi!
Como eu te amo
Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,O orvalho numa flor, nos céus a estrela,No largo mar a sombra de uma vela,Que lá na extrema do horizonte assoma;Como se ama o clarão da branca lua,Da noite na mudez os sons da flauta,As canções saudosíssimas do nauta,Quando em mole vaivém a nau flutua,Como se ama das aves o gemido,Da noite as sombras e do dia as cores,Um céu com luzes, um jardim com flores,Um canto quase em lágrimas sumido;Como se ama o crepúsculo da aurora,A mansa viração que o bosque ondeia,O sussurro da fonte que serpeia,Uma imagem risonha e sedutora;Como se ama o calor e a luz querida,A harmonia, o frescor, os sons, os céus,Silêncio, e cores, e perfume, e vida,Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:Assim eu te amo, assim; mais do que podemDizer-to os lábios meus, — mais do que valeCantar a voz do trovador cansada:O que é belo, o que é justo, santo e grandeAmo em ti. — Por tudo quanto sofro,Por quanto já sofri, por quanto aindaMe resta de sofrer, por tudo eu te amo.