Manifestação artística que valorizava o desenvolvimento tecnológico
O Futurismo foi uma movimentação artística que fez parte das vanguardas europeias (movimento que causou uma ruptura com a tradição cultural do século XIX), assim como o Cubismo, Dadaísmo, Expressionismo e Surrealismo.
Surgido na Itália tinha, assim como os demais movimentos dessa época, uma proposta inovadora e revolucionária que buscava romper com a cultura existente. Teve início com o “Manifesto Futurista”, do poeta italiano Filippo Marinetti, publicado no jornal francês Le Figaro, em 1909, que apresentava uma visão diferenciada do que se considerava belo, além de demonstrar oposição ao moralismo e ao passado.
Confira abaixo um trecho desse manifesto, que é considerado o marco inicial do Futurismo e que expressa os principais ideais do movimento:
“...não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.Nós estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas...”

Obra Dinamismo de um Ciclista (1913) de Umberto Boccioni. (Foto: Wikipedia)
Contexto histórico
Quando o futurismo surgiu, a Europa vivia as mudanças causadas pela Revolução Industrial, que proporcionou muitas mudanças na vida em sociedade, como o surgimento de grandes metrópoles. Além disso, ocorrem muitas transformações sociais com a implantação de indústrias e a modernização de serviços importantes, como comunicações e transporte.
Justamente nesse contexto, os artistas futuristas que faziam parte do conjunto de vanguardas europeias buscavam uma nova forma de expressão, diferente da tradição cultural dominada pelos burgueses, de modo que chegou-se a defender a destruição de museus e cidades antigas, por exemplo, e a guerra era encarada como uma maneira de limpar o mundo.
Dessa forma, a exaltação e valorização da tecnologia como símbolos de inovação e modernidade foram as marcas desse movimento, que inovou ao usar ruídos na música, além de um “teatro sintético futurista”, com peças que duravam menos de cinco minutos.
O futurismo influenciou os diversos tipos de arte, mas os principais artistas que de se destacaram eram pintores. O movimento perdeu força após a Primeira Guerra Mundial, mantendo-se vivo somente na Itália até 1930.
Características do Futurismo
O futurismo tinha como principais características:
- Valorização do desenvolvimento tecnológico e industrial e o rompimento com a cultura tradicional;
- Utilização de onomatopeias (figura de linguagem que reproduz um som com um fonema ou palavra);
- Frases fragmentadas que expressavam a ideia de velocidade aliada ao ritmo da sociedade industrial;
- A propaganda como principal ferramenta de comunicação.
Essas características eram expressas em cada tipo de arte com suas especificidades. Na pintura, por exemplo, era comum a utilização de cores vivas e vibrantes, bem como contrastes e sobreposição de imagens. Também eram utilizadas técnicas do cubismo. As pinturas futuristas tinham como objetivo retratar a velocidade que o desenvolvimento industrial imprimia às pessoas.
Os principais pintores dessa época foram Giacomo Balla (1871-1958), Carlo Carrá (1881-1966), Umberto Boccioni (1882-1916), Gino Severini (1883-1966), Luigi Russolo (1885-1947), Enrico Prampolini (1894-1956), Nikolay Diulgheroff (1901-1982) e Fortunato Depero (1892-1960).
Na arquitetura o foco principal era o mundo industrial e urbano retratado por meio de tecnologias de construção modernas, além de materiais novos, como ferro, concreto armado e vidro. Vale destacar ainda que os volumes eram dinâmicos e arrojados, com linhas oblíquas e elípticas.
Os grandes nomes da arquitetura futurista foram: Antonio Sant’Elia (1888-1916), Angiolo Mazzoni (1894-1979), Auguste Perret (1874-1954), Eugène Freyssnet (1879-1962), Adolf Loos (1870-1933).
Já a literatura com características futuristas teve destaque maior na poesia italiana. Em 1912 foi publicada a primeira antologia, com aspectos como uso de conectivos, ausência de sintaxe e a utilização de símbolos matemáticos e musicais.
Destacaram-se os seguintes escritores: o italiano Filippo Tommaso Marinetti, com “Manifesto Futurista”; o russo Vladimir Maiakovski, com “150.000.000”, “O Percevejo”, e “Os Banhos”; o português Fernando Pessoa, com “Do Livro do Desassossego”, “Autopsicografia”, “O Guardador de Rebanhos” e o brasileiro Oswald de Andrade, com “Pau Brasil”, “Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade”, “Os Condenados”, “O Rei da Vela”, entre outros.
Futurismo no Brasil
O futurismo chegou ao Brasil na década de 1920, 13 anos depois do seu surgimento, quando já era considerado ultrapassado na Europa. Nesse período, o país enfrentava o fim do regime imperial e o início da República.
Apesar do período propício para o surgimento do movimento, quando a industrialização começava a se desenvolver e foram criados os centros urbanos, de início, o futurismo não foi bem recebido em território brasileiro.
Muitos intelectuais da época consideravam o estilo futurista extravagante, louco, até mesmo uma aberração. Porém, pouco tempo depois, os modernistas brasileiros aderiram ao estilo, o que também não durou muito.
Anita Malfatti (1889-1964) e Oswald de Andrade (1890-1954) foram os principais nomes do futurismo no Brasil. Algumas influências futuristas puderam ser observadas na Semana de Arte de Moderna de 1922, como a exaltação do futuro e a ruptura com o passado.
Vale frisar a visita do principal expoente do movimento, Filippo Marinetti, ao Brasil em 1926, reacendendo os ideias do futurismo, principalmente na imprensa.
O futurismo deixou um importante legado em território brasileiro, sendo o responsável por estimular debates culturais relevantes que propiciaram a criação de dois grupos distintos: os passadistas e os futuristas, que passaram a ser chamados posteriormente de modernistas.