Grupo cultural da primeira geração do Modernismo no Brasil
O movimento antropofágico foi uma espécie de manifestação cultural e artística que ocorreu durante a primeira fase do Modernismo no Brasil. Por conta disso, ele é considerado uma das vanguardas desse período.
A ideia do movimento surgiu a partir de observações feitas por Oswald Andrade. O escritor brasileiro, em uma de suas viagens pela Europa, observou o movimento futurista e percebeu o compromisso do idealizador do movimento, o italiano Felippo Tomaso Marinetti, com relação à inovação técnica e a literatura.
No Brasil, o movimento antropofágico teve início com a publicação do primeiro manifesto antropófago ou antropofágico publicado por Andrade na revista Antropofagia, do estado de São Paulo, em 1928.
A utilização do termo “antropofágico” está relacionado a “antropofagia”, que refere-se ao ato de comer ou devorar a carne de outra pessoa. Dentro da história, ela é usada para apontar atos ritualísticos, no qual acredita-se que, ao comer a carne de um outro homem, a pessoa estaria adquirindo também as suas habilidades.
Trazendo para a realidade do movimento antropofágico, a ideia sugerida por Andrade era basicamente “devorar” essa cultura enriquecida por técnicas importadas e promover uma renovação estética na arte brasileira.
Diante disso, o objetivo do movimento foi promover pensamentos para “engolir” as influências estrangeiras, de forma que os modernistas enxergassem a realidade brasileira dentro delas e pudessem desenvolver uma nova cultura com a cara do país, excluindo, o eurocentrismo da arte.
Início do movimento antropofágico
Como foi mencionado anteriormente, o movimento antropofágico teve início a partir de uma observação feita pelo escritor brasileiro Oswald de Andrade. Ele queria mostrar para os autores brasileiros que a influência estrangeira era necessário para o aprimoramento da arte brasileira, entretanto, esse aproveitamento deveria ser feito conforme a cultura do país.
Para incentivar os autores, o movimento aconteceu através do lançamento do manifesto antropófago, que foi publicado na revista Antropofagia, do estado de São Paulo. Um trecho do texto dizia o seguinte:
“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.”
Antes disso, a publicação do manifesto foi muito influenciado pela pintura artística que Oswald de Andrade recebeu de presente da sua esposa: Tarsila do Amaral. Ele entregou-lhe um quadro chamado Abaporu, cujo nome significa “homem que come”. O nome do quadro, inclusive, foi conferido por ele e pelo poeta Raul Bopp, que, ao ver a obra, sugeriu ao escritor a realização de um movimento em torno da pintura.

Capa da revista Antropofagia, do estado de São Paulo. (Foto: Wikipedia)
Características
Ao longo do manifesto, o escritor brasileiro sustentou-se em diversas teorias, oriundas de vários pensadores, a exemplo de Freud, Hermann, Marx, Keyserling, Rosseau, entre outros.
A linguagem do movimento é metafórica, utilizando-se de fragmentos poéticos com bom humor. Essas características, portanto, foram refletidas em outras áreas da pintura e escultura, por exemplo.
O movimento antropofágico representou para o escritor brasileiro um verdadeiro “divisor de águas”, não apenas pela conscientização que buscou-se alcançar, mas sim porque estimulou a divergência de opiniões entre os modernistas, além de promover o deslocamento do objeto estético na fase do Pau-Brasil, outro movimento cultural do Modernismo.
De um modo geral, o caráter assistemático e o estilo telegráfico, usados pelo autor durante o movimento, contribuíram de alguma forma para a ocorrência de um série de mal-entendidos.
No modernismo brasileiro, ele foi o mais influente, pois fixou uma identidade cultural com reflexos na música e literatura brasileira. A Bossa Nova e o Tropicalismo são exemplos disso, assim como o livro "Cobra Norato", do poeta Raul Bopp.
O movimento antropofágico, aliado as ideias dos autores e a própria ideologia de Oswald, causou a união de diversas culturas, como as indígenas, a africana e a cultura italiana, formada principalmente pela colonização europeia.
Modernismo no Brasil
O movimento antropofágico, como foi dito, surgiu durante a primeira fase (geração) do Modernismo no Brasil. Por esse motivo, é importante lembrar os fatos mais marcantes da Semana de Arte Moderna, que ocorreu em São Paulo em 1922, considerada o marco inicial desse período artístico.
A intenção dos artistas modernistas era promover uma mudança radical na linguagem e formato artístico existente, algo que fosse diferente dos padrões impostos pela arte tradicional. Com isso, eles se mostraram contra o parnasianismo vigente da época.
No evento, eles fizeram exposição de quadros, obras literárias, recitaram poemas, entre outras artes, favorecidas por outros movimentos da vanguarda europeia, como o futurismo, o dadaísmo, o expressionismo e surrealismo.
As publicações que se destacaram durante essa fase foram: as revistas Klaxon (1922), Estética (1924), A Revista (1925), Terra Roxa e Outras Terras (1927) e Revista de Antropofagia (1928); além dos manifestos da Poesia Pau-Brasil (1924), Antropófago (1928), Regionalista (1926) e Nhenguaçu Verde-Amarelo (1929).
Por outro lado, além de Oswald de Andrade, os artistas que mais contribuíram para o desenvolvimento desse grupo foram: Alcântara Machado, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Guilherme de Almeida e Ronald Carvalho. Não só o movimento antropofágico se destacou durante a primeira geração do Modernismo no Brasil, bem como outros grupos. Foram eles:
- Antropofagia: Apesar da utilização metafórica do termo, que está associado aos rituais antropofágicos dos índios brasileiros, o escritor Oswald de Andrade utilizou a palavra simbolicamente no sentido de “devorar e deglutir” a cultura, sem perder a originalidade dos artistas brasileiros.
- Pau-Brasil: movimento embasado na revisão crítica de um passado histórico e cultural, que defendia a criação de uma poesia primitiva, a aceitação e a valorização de riquezas. A primeira geração do modernismo brasileiro também ficou conhecida como fase heroica, em razão da coragem e o compromisso dos artistas com a renovação estética da arte.