Lenda folclórica de uma mulher que foi amaldiçoada
A mula sem cabeça é um mito brasileiro das estórias criadas na tradição popular de contar histórias.
Esse mito faz parte das lendas do folclore que foram trazidos para o Brasil, possivelmente, pelos colonizadores portugueses e espanhóis quando desembarcaram no continente americano.
Nas narrativas lendárias, as pessoas a descrevem como uma mula marrom ou preta muito assustadora e com ferraduras de prata ou aço nos cascos.
O que mais impressiona quem ouve as estórias da mula sem cabeça é a sua característica principal – a bola de fogo constante que tem no lugar da cabeça.
Em cada localidade do país, as lendas da mula sem cabeça são contadas de acordo com o regionalismo.
Em decorrência disso, em algumas estórias o nome do personagem pode sofrer variações, como a “Mulher de Padre”, a “Mula de Padre” ou a “Mula Preta”, entre outros.
As lendas da mula sem cabeça também são contadas em outros países. No México o personagem é conhecido como “Marola”, o povo argentino a chama de Mula Anima.
A tranformação da mula sem cabeça acontece de forma semelhante a transformação do lobisomem, outra das figuras mais famosas no folclore brasileiro. Ainda como esse outro ser, a quebra da maldição da mula sem cabeça ocorre de diferentes formas, dependendo da região onde a história é contada.
Mula sem cabeça: a mulher amaldiçoada
A criação da lenda da mula sem cabeça tem motivação religiosa. Isso porque em um passado longínquo, as belas moças belas solteiras que iam às missas da Igreja Católica desejavam arranjar um bom casamento.
Muitos padres, ainda jovens, se dedicavam totalmente à missão de cuidar e abençoar as pessoas e a pregação do evangelho divino.
No século XII, o clero católico decretou oficialmente o celibato. Ou seja, a proibição do casamento dos padres e dos demais membros da hierarquia apostólica, ainda com justificativas bíblicas orientadas pelo apóstolo Paulo de Tarso.
Segundo o texto bíblico no livro de I Coríntios, nos versículos 32 e 35, o apóstolo Paulo orientou o povo cristão acerca da abstenção amorosa. Leia o trecho:
"Quero que você seja livre de medos. Solteiro o homem está preocupado com as coisas do Senhor, a forma de agradar ao Senhor. Porém, o homem casado está preocupado com as coisas mundanas, como agradar à sua esposa, e seus interesses estão divididos. E a mulher solteira está preocupada com as coisas do Senhor, como ser santa no corpo e espírito. Mas a mulher casada está preocupada com as coisas mundanas, como para agradar o marido. Digo isto para seu próprio benefício, para não estabelecer qualquer restrição sobre você, mas para promover a boa ordem e para garantir o seu indiviso devoção ao Senhor."
Então, para amedrontar as mulheres e impedi-las de se apaixonar e se casar com os padres, a Igreja criou a lenda da mula sem cabeça.
E aquela que desobedecesse os domas católicos seria uma mulher amaldiçoada, porque se transformaria em uma mula horrível.

Imagem da mula sem cabeça baseada no ser da lenda. (Foto: Wikimedia)
O monstro
Uma das estórias da mula sem cabeça conta que uma mulher se apaixonou perdidamente por um padre e ele também por ela.
Esse padre era muito querido e cuidava de uma paróquia localizada em uma pequena cidade do interior. O líder religioso, depois de muito pensar sobre o assunto, decidiu abandonar a batina e seguir em busca da sua amada.
A mulher era linda e trabalhava na lavoura. Depois de horas de viagem, o ex-padre chegou até um pequeno povoado onde morava sua futura esposa.
Ele a encontrou próximo de casa na companhia de seu pais. Entretanto, a mãe da bela moça ao ver os dois apaixonados reagiu muito decepcionada e perguntou a filha:
- Esse é o rapaz com quem pretende casar?
- Claro que sim, mamãe. Afirmou a moça.
A mãe esclareceu a sua filha que a consumação desse casamento seria terrível. E perguntou novamente agora para o casal:
- Vocês não conhecem a estória da mula sem cabeça?
- Não! Responderam assustados.
Então, a mãe contou que segundo uma lenda toda mulher que casar com um padre será transformada em um monstro feioso, de uma mula sem cabeça, em uma noite de quinta-feira.
O pai da jovem desacreditou da estória e concedeu sua benção para os noivos. A mãe continuou muito preocupada e pensativa.
Em uma noite de sábado foi oficializado o casamento com uma linda cerimônia no pequeno povoado. O casal, muito feliz, comeu, dançou e bebeu com toda família até o amanhecer.
A felicidade dos dois amantes apaixonados durou pouco tempo. Exatamente como a mãe havia falado, na madrugada de quinta-feira sobreveio a mulher a maldição.
A bela camponesa tornou-se uma mula, com muito fogo no lugar da cabeça, e saiu disparada galopeando mata a dentro, relinchando estrondosamente.

A Mula sem cabeça é um mito de uma mulher amaldiçoada. (Foto: Wikipédia)
Perambulando no matagal, o animal queimou com o fogo que saia do seu pescoço muitas árvores nativas. Também pisoteou muitos animais da floresta e rolou ladeira abaixo nas pirambeiras.
Mula sem cabeça nos livros infantis
Contada e recontada de geração para geração, as estórias do personagem folclórico mais assustador foram recriadas nos livros infantis de um dos autores mais conhecidos do Brasil.
O Saci Pererê, o Curupira, o Boitatá e vários outros personagens do folclore foram protagonistas de estórias impressionantes produzidas pelo escritor brasileiro Monteiro Lobato. E com a mula sem cabeça não poderia ser diferente.
Algumas dessas estórias engraçadas e criativas estão no livro “O Saci”. O capítulo XX da obra dedica-se à narração da mula, quando vem galopeando tão forte que Pedrinho estremece de susto.
A descrição do personagem é de um animal horrível e que assusta a todos que a veem. Leia um trecho do livro em que o saci fala sobre a mula:

A mula sem cabeça é um personagem que assusta a todos que a veem. (Foto: Leiturartes)
“Ela corre sem cessar, espalhando a loucura por onde
passa. Não existe criatura, seja bicho do mato ou gente, que
não prefira ver o diabo em pessoa a ver a tal mula sem cabeça. É horrenda!
— Mas como será que vomita fogo pelas ventas, se as
ventas estão na cabeça e ela não tem cabeça?
— Também não entendo; mas é assim — disse o saci.