As temáticas partem do indivíduo e vão se desenvolvendo através das relação com a cidade e a família, característica que faz parte do estilo de Drummond.
“A Rosa do Povo” é uma obra que faz parte de momentos sociais importantes e que influenciaram o autor na construção da obra.
Temáticas
Drummond de Andrade vai além das temáticas individuais sobre sua infância, sua terra natal e suas perspectivas do futuro. Em “A Rosa do Povo”, ele apresenta seus poemas através do cenário social ao qual pertence.
Nesta obra o autor transcorre sobre o passado, o amor e o cotidiano. A celebração entre amigos é uma das temáticas que encontramos no livro, está presente nos poemas “Mário de Andrade desce ao inferno” e “Canto do homem do povo Charlie Chaplin”.
“O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina,
e já um poste depois
ia descendo o Amazonas,
tinha coletes de música,
entre cantares de amigo
pairava na renda fina
dos Sete Saltos,
na serrania mineira,
no mangue, no seringal,
nos mais diversos brasis,
e para além dos brasis,
nas regiões inventadas,
países a que aspiramos,
fantásticos,
mas certos, inelutáveis,
terra de João invencível,
a rosa do povo aberta…"
Trecho do poema “Mário de Andrade desce ao inferno”
O povo também faz parte da temática poética desse livro, além da reflexão existencial em relação ao mundo. A insignificância e a inutilidade como as pessoas têm tratado as outras, como uma espécie de mercadoria, é apontada no poema “A flor e a náusea”.
"Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.”
Trecho do poema “A flor e a náusea”
Drummond usa a metalinguística para falar da poesia com a própria poesia, como no poema “Procura da Poesia”.
Procura da poesia
“Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.”
Um dos poemas mais representativos da obra de Drummond, “Procura da poesia” traz uma espécie de guia sobre o que não deve ser preocupante para realizar a produção de poesia.
No poema, o autor esclarece que a essência da poesia não são as emoções, mas sim o trabalho com a linguagem. Deve tratar de aspectos alheios à própria poesia, como sentimentos e fatos.
O poema pode conter emotiva, realidade vivida e temática social, porém o mais importante é saber lidar com a pesquisa da linguagem e a função poética.
Todos os poemas da obra de Carlos Drummond de Andrade
- Consideração do poema
- Procura da poesia
- A flor e a náusea
- Carrego comigo
- Anoitecer
- O medo
- Nosso tempo
- Passagem do ano
- Passagem da noite
- Uma hora e mais outra
- Nos áureos tempos
- Rola mundo
- Áporo
- Ontem
- Fragilidade
- O poeta escolhe seu túmulo
- Vida menor
- Campo, chinês e sono
- Episódio
- Nova canção do exílio
- Economia dos mares terrestres
- Equívoco
- Movimento da espada
- Assalto
- Anúncio da rosa
- Edifício São Borja
- O mito
- Resíduo
- Caso do vestido
- O elefante
- Morte do leiteiro
- Noite na repartição
- Morte no avião
- Desfile
- Consolo na praia
- Retrato de família
- Interpretação de dezembro
- Como um presente
- Rua da madrugada
- Idade madura
- Versos à boca da noite
- No país dos Andrades
- Notícias
- América
- Cidade prevista
- Carta a Stalingrado
- Telegrama de Moscou
- Mas viveremos
- Visão 1944
- Com o russo em Berlim
- Indicações
- Onde há pouco falávamos
- Os últimos dias
- Mário de Andrade desce aos infernos
- Canto ao homem do povo Charlie Chaplin