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Alguma Poesia

Postado por Adriele Oliveira em 09/09/2025 e atualizado pela última vez em 09/09/2025
A obra “Alguma Poesia” é composta por quarenta e nove poemas escritos a partir de 1925 até o ano de sua publicação. 

Livro “Alguma Poesia” (1930) de Carlos Drummond de Andrade (Foto: gerada por IA)

“Alguma poesia” é a primeira obra do autor Carlos Drummond de Andrade. Publicada no ano de 1930, faz parte da primeira e da segunda fase do Modernismo no BrasilEssa fase do modernismo foi marcada pelo coloquialismo e pelo interesse dos artistas em se desvincular das tendências do parnasiano-simbolistas que dominavam na época, adotando o cotidiano como temática poética. Neles, o poeta Carlos Drummond de Andrade segue a linha temática que permaneceu no decorrer de sua carreira e obras.

Análise da obra Alguma Poesia


Através de seus poemas-piada, Drummond faz um desabafo sobre sentimentos que o amargura. No prosaísmo esconde a busca por uma poesia autêntica e autônomaQuando se dedica ao cotidiano, ultrapassa o tempo e o espaço em busca de algo mais duradouro. Capta em si, e no ambiente que o rodeia, as emoções sobre as quais discorre.

Inspirado em sua própria vida, Carlos Drummond de Andrade analisa suas relações pessoais de acordo com a sua perspectivaO retrato dessas análises e lembranças podem ser encontrados nos poemas “Infância”, “Família” e “Sesta” que fazem parte do livro “Alguma Poesia”.

Poema Infância 


Em Infância, o autor relembra sua vida no interior de Minas Gerais, em meio ao campo. Retrata a tradição familiar da época, na qual sua mãe cuidava do lar e das crianças enquanto seu pai trabalhava na roça. Carlos Drummond de Andrade lia romances de Robinson Crusoé, mas acredita que sua realidade vivida e escrita era a história mais bonita.

Infância

"Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras.
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé."

Poemas de sete faces


Intitulado “Poema de sete faces” é o primeiro poema do livro “Alguma Poesia”. As sete faces são abordadas nas sete estrofes que compõem o texto.

O poema que pode ser interpretado como uma autobiografia de Drummond, inclusive ele utiliza o seu primeiro nome para o personagem, se trata de um indivíduo confuso, que narra sua vida desde a infância até a velhice.

Questionando a Deus o motivo de sua existência, traz de modo metafórico sua desesperança da vida e seu desacerto com o mundo. Drummond de Andrade utilizou no trecho “Vai, Carlos! ser gauche na vida.” o termo gauche, pouco conhecido na linguagem cotidiana brasileira. De origem francesa, a palavra significa esquerda, também usada para se referir a alguém estranho, desajeitado, acanhado.

Nesse poema, Carlos já nasceu fadado a ser um indivíduo tímido, incapaz, fraco e sem muita aptidão que busca alternativas diante da amplidão do mundo.

Poema de sete faces

"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo."

Coração numeroso


Através de um passeio no Rio de Janeiro, Carlos Drummond de Andrade exterioriza sua afeição pelo urbano, em especial pelo Rio. Feito turista que só conhece os campos e ventos de Minas Gerais, descobre o fascínio causado pelas grandes casas, pelo mar e pelos homens que possuem tudo isso e são indiferentes.

Coração numeroso

"Foi no Rio.
Eu passava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.

Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.

Meus paralíticos sonhos desgosto de viver
(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.

Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptuosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor."

Outros poemas que compõem a obra

  • Casamento do céu e do inferno
  • Também já fui brasileiro
  • Construção
  • Toada do amor
  • Europa, França e Bahia
  • A rua diferente
  • Lagoa
  • Cantiga de viúvo
  • O que fizeram do Natal
  • Política literária
  • Sentimental
  • No meio do caminho
  • Igreja
  • Poema que aconteceu
  • Esperteza
  • Política
  • Poema do jornal
  • Sweet home
  • Nota social
  • Poesia
  • Festa no brejo
  • Jardim da Praça da Liberdade
  • Cidadezinha qualquer
  • Fuga
  • Sinal de apito
  • Papai Noel às avessas
  • Quadrilha
  • Família
  • O sobrevivente
  • Moça e soldado
  • Anedota búlgara
  • Música
  • Cota zero
  • Iniciação amorosa
  • Balada do amor através das idades
  • Cabaré mineiro
  • Quero me casar
  • Epigrama para Emílio Moura
  • Sociedade
  • Elegia do rei de Sião
  • Sesta
  • Outubro 1930
  • Explicação
  • Romaria
  • Poema da purificação

Sobre o autor


Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902 no município de Itabira, em Minas Gerais. Foi considerado o primeiro grande poeta a se firmar após a estreia modernista

Carlos Drummond de Andrade (1902- 1987) (Foto: gerada por IA ) 

Drummond disseminou em suas obras a liberdade linguística, o verso livre, o metro livre e as temáticas cotidianas. Com obras que vão desde o infantil à antologia poética, tornou-se uma referência na literatura brasileira.

No mesmo ano em que “Alguma Poesia” (1930), sua primeira obra foi publicada, o seu poema Sentimental foi recitado na conferência "Poesia Moderníssima do Brasil", que ocorreu no curso de férias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Drummond de Andrade faleceu aos 84 anos na cidade do Rio de Janeiro.

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Autor: Carlos Drummond de Andrade
Primeira Publicação: 1930
Gênero: Poema, Poesia, Literatura Brasileira
Obras Relacionadas: A Rosa do Povo, Elegia, As Histórias das Muralhas
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