A construção emblemática do personagem
Oralmente, a construção da história da ex-escrava sobreviveu ao longo de 100 anos. Quando, o então advogado Joaquim Felício dos Santos resolve escrever sobre em suas meninas sobre o distrito de Arraial.
Entretanto, o auto das memórias descreveu com as características e preconceitos que pesavam sobre os negros da época. Não houve imparcialidade na descrição, o advogado construiu um discurso em imperava a não aceitação contra os negros, as mulheres e as relações consensuais.
“...tinha as feições grosseiras, alta, corpulenta, trazia a cabeça rapada e coberta com uma cabeleira anelada em cachos pendentes, como então se usava; não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito, não tivera educação, enfim não possuía atrativo algum, que pudesse justificar uma forte paixão”.
Descreveu Joaquim Felício dos Santos.
Em contrapartida, por volta dos anos 50, a escritora
Cecília Meireles faz um
esboço de Chica da Silva. Dessa vez livre da discriminação e dos aspectos moralizantes que afetavam o período anterior. Cecília assim descreveu Chica:
“Nem Santa Ifigênia, toda em festa acesa, brilha mais que a negra, na sua riqueza. Contemplai, branquinhas, na sua varanda, a Chica da Silva, a Chica-que-manda! ”
Passados mais de cem anos o sobrinho-neto do
advogado Joaquim Felício fez uma análise da história e
escreveu o romance com o nome da escrava alforriada. Essa obra serviu como base para o posterior filme de Cacá Diegues realizado em 1976.
Passando de uma personagem emblemática da vila diamantina, Chica torna-se a partir desse contexto uma figura reconhecida no Brasil e no exterior. Com ajuda do cinema, o nome de Chica da Silva foi eternizado e sua figura sempre relacionada à sensualidade e beleza, desmistificando a figura grotesca, incivilizada e pervertida relatada por Joaquim Felício.
Figura materna
Em todos os relatos sobre o comportamento de Chica da Silva enquanto figura materna, há uma demonstração explícita do cuidado e preocupação em manter os filhos em boas escolas, provavelmente frequentada por classes elitistas da sociedade.
Os quatro filhos homens seguiam em escolas regulares, alcançaram a educação superior e depois seguiram para Portugal com o pai. As nove filhas mulheres faziam parte do Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição de Monte Alegre de Macaúbas, considerado o melhor educandário da capitania.
Após 17 anos de casamento, o casal se separou e João Fernandes levou os quatro filhos para Europa. O comprador de diamantes deixou para Chica recursos financeiros suficientes para que ela e as nove filhas vivessem com tranquilidade financeira até a morte.
Apesar de demonstrar uma conduta maternal exemplar, Chica da Silva teve uma extrema dificuldade de inserção na classe dominante, diferente do que é apresentado na teledramaturgia. As dificuldades e discriminações são facilmente percebidas nas certidões de nascimento dos filhos do casal.
Os padrinhos das treze crianças são pessoas com pouco destaque na elite brasileira. Isso acontecia porque as famílias em elevado status social não queriam se comprometer batizando crianças mestiças.
Outro fator marcante é que os documentos das crianças das constavam o nome da mãe, como forma de negligenciar a origem africana dos treze filhos do casal.
A historiadora Júnia Furtado também constatou ao longo dos seus estudos que, apesar de saído da condição
escrava, Chica da Silva não concedeu a liberdade aos seus. Com o intuito de manter a posição social e pertencer a sociedade branca, a escrava alforriada manteve cerca de 104 negros explorados nas suas terras e alugados para seguir a outros senhores ricos.
Morte, exumação do corpo e documentário
Chica da Silva faleceu no ano de 1796 e, de acordo com os costumes da época, ela tinha o direito de ser sepultada dentro da igreja de qualquer uma das quatro irmandades da qual fazia parte.
Foi, portanto, sepultada dentro da igreja que pertencia à mais elevada irmandade do Arraial do Tijuco. As cerimônias realizadas nessa igreja eram rituais praticamente exclusivos às famílias de brancos e ricos.
Isso demonstra que Chica da Silva permaneceu com a condição social muito elevada mesmo depois de muitos anos da separação conjugal de João Fernandes e sua ida para Portugal.
Precisamente no dia 23 de novembro de 2015 os restos mortais da ex-escrava Chica da Silva foram exumados para auxiliar na produção de um documentário intitulado "A rainha das Américas".
Peritos forenses fizeram a exumação do corpo com a intenção de realizar estudos e confirmar se a ossada realmente pertencia a Chica. A obra documental tem a direção da atriz Zezé Motta.
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