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Sua mochila está vazia!

A Hora da Estrela

Postado por Samara Rodrigues em 14/08/2025 e atualizado pela última vez em 25/08/2025
O livro “A hora da estrela” tem um início diferente do costumeiro. Rodrigo S. M. é o escritor e narrador da história que, a dois anos e meio, vem descobrindo gradualmente os porquês escreve tal narrativa.

Rodrigo S. M. é um homem com dinheiro, mas que não possui classe social. Escreve por não ter mais nada a fazer, é um solitário que tem na escrita a novidade na sua rotina. Para escrever esta história, deixou a barba crescer, dormiu pouco para conservar as olheiras, vestiu roupas velhas e absteve-se de contato social, sexo e futebol.

Rodrigo revela que embora seja uma história inventada, ela é verdadeira. E, apesar de nunca ter vivido tudo que contará no decorrer de sua obra, ele sentiu no ar, de relance, o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina.A pessoa de quem vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham.

A referida moça trata-se de Macabéa, uma jovem de Alagoas que estudou até o terceiro ano primário. Órfã de pai e mãe, foi criada pela tia que a maltratava com o propósito de educá-la. Analfabeta, tudo que tinha era um curso de datilografiaNascera inteiramente raquítica, herança do sertão – os maus antecedentes de que falei. Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de Alagoas, lá onde o diabo perdera as botas. Muito depois fora para Maceió com a tia beata, única parenta sua no mundo.


A hora da estrela foi a última obra publicada de Clarice Lispector

Macabéa: A vida simples e solitária de uma datilógrafa no Rio


Mais tarde, mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde a tia lhe arranjará um emprego como datilografa. Após a morte da beata, passou a dividir quarto com mais quatro moças, todas Marias, balconistas das Lojas Americanas que viviam cansadas. Macabéa era magrela, tinha o rosto cheio de “panos” que disfarçava com uma grossa camada de pó branco. Raramente tomava banho. Assoava o nariz na barra da própria saia.

Vivia despretensiosamente, apenas inspirando e expirando. Não era delicada, não tinha encanto. Quando sentia fome antes de dormir, pensava em coxa de vaca, então a única coisa que podia fazer era mastigar papel bem mastigadinho e engolir. Nunca havia jantado ou almoçado num restaurante. Era de pé mesmo no botequim da esquina. Tinha uma vaga ideia que mulher que entra em restaurante é francesa e desfrutável.

Mesmo diante das dificuldades, Macabéa se dava alguns luxos, como tomar um gole de café frio antes de dormir, o qual pagava tendo azia ao acordar, e ir uma vez por mês ao cinema. Rodrigo a considerava incompetente, lhe parecia que Macabéa não tinha jeito para se ajeitar na vida. Ela acreditava em tudo que existia, e que não existia também. Vivia em seu próprio mundo, em um irreal cotidiano. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola.

O Primeiro Amor de Macabéa


Macabéa escrevia muito mal. Certo dia, seu chefe anunciou em um tom agressivo que manteria apenas Glória no emprego, já que ela errava demais na datilografia. Glória era estenografa, ganhava mais e não se atrapalhava com as palavras difíceis que o chefe tanto gostava.

A jovem desculpou-se por lhe provocar tal aborrecimento. Surpreso com a inesperada fragilidade da moça, Raimundo Silveira mudou de ideia. Todas as madrugadas Macabéa ligava o rádio emprestado por sua colega Maria da Penha. Não ouvia música, apenas anúncios comerciais e ela adorava. Os anúncios eram sua fonte de conhecimento, não tinha certeza se utilizaria as informações que aprenderá na Rádio Relógio, mas achava importante saber.

Foi assim que aprendeu que o Imperador Carlos Magno era na terra dele chamado Carolus. (...) Ouvira também a informação de que o único animal que não cruza com filho era o cavalo. Em uma manhã de maio decidiu faltar no trabalho para desfrutar do seu próprio prazer. Foi no fim desta mesma tarde chuvosa que seu coração disparou, Macabéa havia conhecido com o primeiro namorado de sua vida

O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam. Olímpico de Jesus vinha do sertão da Paraíba, trabalhava como operário em uma metalúrgica. Dormia de graça em uma guarita e deseja ser toureiro. Usava um dente de ouro e nas horas vagas esculpia figuras de santo.

Para Macabéa, ele metalúrgico e ela datilógrafa formavam um casal de classe. Olímpico era ambicioso, tinha interesse pelos negócios públicos, e não tinha muita paciência com a ignorância da companheira.

Entre a Esperança e a Desilusão


Olímpico na verdade não mostrava satisfação nenhuma em namorar Macabéa —  Olímpico talvez visse que Macabéa não tinha força de raça, era subproduto. Mas quando ele viu a colega da Macabéa, sentiu logo que ela tinha classe.Interesseiro, Olímpico viu em Glória uma boa oportunidade. Apesar de feia, era “cariosa da gema” e filha de açougueiro, o que significava que era bem alimentada e seria uma boa parideira.

Olímpico rompeu com Macabéa e comunicou que encontrou uma nova moça, esta era Glória. Sem saber qual outra reação poderia ter, Macabéa riu. Como forma de celebrar que nada havia perdido, Macabéa comprou um batom novo vermelho vivo. Pintou os lábios no banheiro da firma e sentiu-se como uma grandiosa artista de cinema.

O mundo de Macabéa era pequeno, composto pela tia, Glória, o Seu Raimundo e Olímpico. E de muito longe, as moças com quem repartia o quarto. 
Ao se consultar com um médico barato, Macabéa descobre que está com princípio de tuberculose pulmonar. Convencida que permaneceria sozinha na vida, Macabéa é incentivada por Glória a se consultar com a cartomante.

Após pegar dinheiro emprestado, Macabéa toma um taxi rumo ao apartamento de Madama Carlota. Nunca se sentiu tão audaciosa. Madama acertou tudo sobre o seu passado e presente. A previsão para o futuro era animadora. 

Segundo a cartomante, a vida de Macabéa iria mudar completamente assim que a nordestina saísse de sua casa. Seu ex-namorado voltaria arrependido e lhe pediria em casamento e muito dinheiro iria chegar através de um estrangeiro, e na verdade ele quem iria se casar com Macabéa. Esquecera Olímpico e só pensava no gringo: era sorte demais pegar homem de olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos, não havia como errar, era vasto o campo das possibilidades. Macabéa saiu da casa da cartomante um pouco confusa, nunca havia sentido tanta esperança. 

O Luxo de Viver


Assim como havia sentença de morte, a cartomante lhe decretara sentença de vida. Tudo de repente era muito e tão amplo que ela sentiu vontade de chorar. Mas não chorou: seus olhos faiscavam como o sol que morria. Então ao dar o primeiro passo rumo a nova vida que a esperava, foi atingida por um Mercedes amarelo. Macabá acreditou que a promessa da madama começava a se realizar, já que o carro que a derrubou erra luxuoso.

E ali, jogada na sarjeta após bater a cabeça na quina da calçada pensou ser seu primeiro dia de vida de verdade. Pessoas a espiavam, não a ajudaram mas pela primeira vez perceberam sua presença. Via-se perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. 

''Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber''. Abraçada a si mesma, em posição fetal, que Macabéa se livrou se si. Morreu e junto consigo levou Rodrigo S. M. que ao encontrá-la, sentiu que precisava revelar-lhe a vida. Viver é luxo.

Análise da obra A Hora da Estrela 


Publicada em 1977, “a hora da estrela” é o último romance de Clarice Lispector. Pertencente a terceira geração modernista no Brasil e destaca-se por se diferenciar de tudo que a autoria já havia produzido. metalinguagem utilizada nesta obra se põe como uma certa forma de protesto. Quando Clarice apresenta um personagem masculino contando a história de uma mulher desconhecida, sob a justificativa que “teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas”, ela critica o preconceito sofrido pelas escritoras que eram reconhecidas apenas pelos romances costumeiros. 

Projetando-se em cima da angústia de Rodrigo S. M., Clarice Lispector revela que a criação de uma obra não acontece do nada e expressa seu incomodo sobre a morte, algo ainda sem resposta. Retrata a essência e a cultura do povo brasileiro, descrevendo uma incansável busca por uma vida melhor e uma posição social. A luta pela sobrevivência é tão notável, que a personagem se dá alguns luxos que a faz sentir como alguém acima de sua classe.



 Clarice Lispector (1920-1977) foi uma escritora brasileira

Além disso, desaprova quem toma a palavra do outro contanto uma história que não é sua. Rodrigo não conhecia Macabéa, tudo que conhecemos sobre a personagem faz parte do imaginário do narrador. Ele nunca esteve na mesma posição que a nordestina, e defende-se sob o argumento “Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe”.

A frase que dá nome a obra faz total sentido ao fim da protagonista. A hora da estrela relaciona-se com o momento em que Macabéa tem um momento só seu, em que pela primeira vez sua presença foi notada e fez parte de algo no mundo real. A estrela tem relação com o símbolo da marca Mercedes Benz, carro que atropela a personagem de cor amarela, mas também faz referência ao seu momento de “glória”, o mais perto que chegou de se comparar a uma celebridade. 

Temáticas do livro A Hora da Estrela


Clarice Lispector aborda alguns temas que faziam parte do momento social em que a obra foi produzida. As histórias, dificuldades, características e comparações que um migrante se depara quando sai do interior rumo a cidade grande em busca de uma vida melhor. 

A desigualdade não é apenas social, mas também intelectual. Enquanto Rodrigo faz parte da camada intelectual e dá voz a uma história desconhecida, a protagonista desta história, que faz parte da massa, não sabe se expressar. A personagem principal não tem voz. Macabéa não foi ouvida nem durante sua vida, nem através da sua história.

Personagens principais A Hora da Estrela


Rodrigo S. M.:  escritor e narrador que se torna autor da história.
Macabéa: jovem nordestina que migra para o Rio e tem sua história contada por um desconhecido.
Tia: segunda mãe de Macabéa, a criou após a morte dos pais.
Olímpico de Jesus: primeiro namorado de Macabéa. Nordestino ambicioso, a troca por sua colega de trabalho.
Glória: filha do açougueiro e colega de trabalho de Macabéa.
Madame Carlota: ex-prostituta e cartomante.

Curiosidades sobre o livro A Hora da Estrela 


Em 1977, Clarice Lispector revela que a obra tem um total de 13 títulos pois todos possuem um momento importante dentro da história.
Em 1985, a obra serviu de inspiração para a produção do filme “A hora da estrela”. Dirigido por Suzana Amaral, entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Nome do livro: A hora da estrela
Autor: Clarice Lispector
Primeira publicação: 1977
Gênero: Literatura Brasileira, Romance, Ficção
Obras relacionadas: Laços de família, Água viva, Um sopro de vida

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