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Sua mochila está vazia!

Capitães da Areia

Postado por Adriele Oliveira em 15/08/2025 e atualizado pela última vez em 25/08/2025
A obra Capitães da Areia inicia com publicações feitas no jornal local relatando um assalto realizado por uma gangue de menores infratores na área mais nobre de Salvador

Na primeira publicação há o relato do assalto e uma requisição para que a polícia e o juizado de menores prendam essas crianças que, de acordo a publicação, estão tirando o sono da população.

Seguinte a este pedido, vem as respostas dos órgãos citados, no qual ninguém se faz responsável por estes menores. Cada um defende sua posição, transferindo o compromisso de regeneração aos próprios infratores.

“Não tenho culpa, porém, de que fujam, que não se impressionem com o exemplo de trabalho que encontram naquele estabelecimento de educação e que, por meio da fuga, abandonem um ambiente onde se respiram paz e trabalho e onde são tratados com o maior carinho.”

A próxima publicação vem de uma mãe de um jovem infrator que passou seis meses reformatório e relata o quanto os jovens eram maltratados dentro da instituição. Até sugere enviem, secretamente, alguém da redação para verificar as condições desumanas dos que ali residem.

Obra retrata sonhos e dramas de meninos que o mundo esqueceu.


Da polêmica no jornal ao império das ruas


Com o título “Será Verdade?”, o jornal questiona a veracidade da confirmação feita por um padre sobre a situação dos jovens em referência à carta anterior. 

Então, o Reformatório Baiano de Menores Delinquentes e Abandonados resolve marcar uma visita, em um dia específico, para que a publicação visite o local e verifique a procedência das informações. 

O resultado desta visita agendada é uma publicação cheia de elogios a organização.

“UM ESTABELECIMENTO MODELAR ONDE REINAM A PAZ E O TRATADO – UM DIRETOR QUE É UM AMIGO – ÓTIMA COMIDA – CRIANÇAS LADRONAS EM CAMINHO DA REGENERAÇÃO – ACUSAÇÕES IMPROCEDENTES – SÓ UM INCORRIGÍVEL RECLAMA – O “REFORMATÓRIO BAIANO” É UMA GRANDE FAMÍLIA – ONDE DEVIAM ESTAR OS “CAPITÃES DA AREIA”.”

A partir daí começa a história que revela presente, passado e o futuro dos meninos intitulado Capitães da Areia que vivem em um trapiche (armazém) abandonado, um antigo cais do porto. 

Eram moleques de todas as cores e idades, desde os 9 aos 16 anos, e se consideravam os donos da cidade. Meninos vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro

Os Capitães da Areia eram um grupo estruturado, apesar de sobreviverem basicamente de furtos, possuíam líder, normas e princípios. Pedro Bala é o chefe dos Capitães da Areia, vive nas ruas desde os 5 quando seu pai fora assassinado com um tiro. 

Ganhou a liderança do grupo ao travar uma briga com caboclo Raimundo, que até então era o chefe das crianças abandonadas da cidade. Raimundo era mais alto e mais velho e feriu o rosto de Pedro com uma navalha, cicatriz que carrega pelo resto da vida. Porém, Pedro era mais ágil, ganhou a briga e o comando.

“Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala à chefia, e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche.”

Epidemia, perdas e a fragilidade dos Capitães da Areia


O grupo era variado, cada um possuía uma história que os levará até o casarão e todos tinham uma função. Para manter-se, os Capitães da Areia viviam pela cidade pedindo dinheiro ou roubando comida. 

O roubo de residências também fazia parte dos seus planos. Sem-Pernas era o responsável por se infiltrar nas casas, argumentando ser um órfão deficiente, ganhava a confiança da família, observava o que havia de valor e relatava para os Capitães da Areia.

Além dos furtos, das brigas de rua e dos confrontos com a polícia, o estupro também era algo que fazia parte das atividades do bando. Abusavam das moças que cortavam caminho pela praia à noite, referindo-se ao ato como “derrubar negrinhas” no areal.

Nesta época, ocorreu uma epidemia de varíola. Os ricos se vacinaram e os pobres adoeciam. Almiro foi o primeiro dos Capitães da Areia manifestar a doença, contaram com a ajuda de padre José Pedro e Don’Aninha, mãe de santo.

Havia uma lei que obrigava os cidadãos a denunciarem à Saúde Pública os casos de varíola, para o recolhimento dos variolosos aos lazaretos. 

Porém, padre José desobedeceu a lei e ficou ao lado dos Capitães da Areia, levou Almiro a um médico que se dizia livre-pensador. Mas na verdade o médico era espírita, denunciou o caso de Almiro e também o padre como encobridor do caso. Almiro foi mesmo levado para o lazareto e nunca mais voltou.

Este acontecimento provocou uma certa mudança no grupo, primeiro Sem-Perna sentiu-se culpado por ter armado um escândalo quando descobriram a enfermidade de Almiro e depois que soube de sua morte, não conversava com ninguém, só com o cachorro que arranjara.

Segundo, por que Boa-Vida decide ir embora do bando receoso de que seus amigos também contraiam a doença.

“Seu vulto desapareceu no areal. Professor ficou com as palavras presas, um nó na garganta. Mas também achava bonito Boa-Vida andar assim para a morte para não contaminar os outros. Os homens assim são os que têm uma estrela no lugar do coração. E quando morrem o coração fica no céu, diz o Querido-de-Deus. Boa-Vida era um menino, não era um homem. Mas já tinha uma estrela no lugar do coração. Já desapareceu o seu vulto. E então a certeza de que não mais verá seu amigo encheu o coração do Professor. A certeza de que o outro ia para a morte.”

Dora: perda, fome e a chegada ao bando 


epidemia alcançou também a família de Dora. Seu pai morreu antes de conseguir retornar para casa, já sua mãe lavadeira conseguiu se esconder para não ser mandada ao lazarento e cuidava-se em casa. Teve uma recaída e morreu dois dias depois.

“Dora não soluçava. Corriam as lágrimas pelo seu rosto, mas enquanto o caixão descia ela pensava era em Zé Fuinha, que pedia o que comer. O irmãozinho chorava de dor e de fome. Era muito menino para compreender que tinha ficado sem ninguém na imensidão da cidade.”

Despejados, Dora e seu irmão caçula desceram para cidade, acreditava que encontraria alguém que lhes dessem comida e um emprego de copeira. Rejeitada por uma das clientes ricas de sua mãe, encontra o irmão junto a outros meninos de rua, eram João Grande e Professor.

Dora percebeu que sentiam fome, assim como ela, então dividiram o pão dormido. Como não tinha para onde ir, foi convidada a dormir no trapiche. Era a única menina no bando, o que causou uma briga entre os que queriam tomá-la a força. 

Por fim, a acolheram. Dora não achava justo comer e não participar dos roubos, por isso, começou a roubar como os Capitães da Areia. Pedro Bala aceitou, por mais que tivesse receio do resultado. 

Dora e Pedro Bala: amor, perda e o início do fim


Dora se tornou uma espécie de mãe para os garotos do trapiche, costurava os trapos dos meninos, transmitia afeto e segurança. Despertou os sentimentos do Professor que desejava um daqueles olhares plenos de amor que ela lançava a Pedro Bala quando o via fugindo da polícia.

Depois que Pedro Bala entra em uma briga com Ezequiel e mais três garotos por sua causa, Dora o beija e se tornam noivos, mesmo não sabendo que era amor, sentiam que era bom.

Durante a invasão ao palacete do doutor Alcebíades Menezes, seis dos vários Capitães da Areia foram pegos. Com um golpe de capoeira, Pedro Bala consegue arquitetar um plano e dá fuga para seus amigos.

Dora não foge, é levada ao Orfanato Nossa Senhora da Piedade, considerado um santo ambiente que a fará esquecer Pedro Bala. No Reformatório, Pedro foi espancado e lembrou-se de seus companheiros. 

“A segurança de todos dependia da coragem dele. Ele era o chefe, não podia trair. Lembrou-se da cena da tarde. Conseguira dar fuga aos outros, apesar de estar preso também. O orgulho encheu seu peito. Não falaria, fugiria do reformatório, libertaria Dora. E se vingaria... Se vingaria...”

Enquanto isolado na cafua escura, Pedro só pensa no rosto de Dora e no quanto ela deve estar sofrendo. Um mês no orfanato fez Dora adoecer.

Após alguns dias e com a ajuda dos Capitães da Areia, Pedro foge do reformatório e resgata sua amada. Muito doente, Dora retorna ao trapiche e causa preocupação aos seus “irmãos”.  

Dora pede a Pedro Bala que a ame. Não parece sentir dor e seu rosto febril se acende. 

“Na madrugada, Pedro põe a mão na testa de Dora. Fria. Não tem mais pulso, o coração não bate mais. O seu grito atravessa o trapiche, desperta os meninos.”

Assim começa uma nova fase na vida dos Capitães da Areia. É o marco do começo do fim para os principais membros do grupo.

Após Dora: o destino final dos Capitães da Areia


A morte de Dora deixou um vazio no trapiche, as lembranças a sua presença, seu carinho, seu sorriso, tronou o lugar como uma moldura sem quadro. A desintegração do grupo foi ocorrendo aos poucos e cada um seguiu seu caminho. Por fim: 
Sem-Pernas se mata antes de ser capturado pela polícia que tanto odeia.

Professor parte para o Rio de Janeiro onde torna-se um pintor de sucesso, na qual, os sentimentos bons de suas obras estão sempre representados na figura de uma menina magra de cabelos loiros e faces febris.

Gato se torna um malandro de verdade, ganha dinheiro vendendo terras que na verdade eram o leito de um rio. 

Volta Seca se torna o mais jovem cangaceiro do grupo de Lampião, era temido em todo sertão por sua crueldade. Matou mais de 60 homens antes de ser preso e condenado.

Pirulito se torna padre.

João Grande torna-se marinheiro.

Querido-de-Deus continua sua vida de capoeirista e malandro. 

Boa Vida torna-se um musico e malandro.

Pedro Bala inspira-se nas histórias de seu pai sindicalista, começa a se envolver com os doqueiros e finalmente os Capitães da Areia ajudam numa greve. Transfere a liderança do grupo para Barandão, mas antes os transforma numa espécie de grupo de choque. 

Pedro Bala torna um líder revolucionário comunista que traz orgulho a todos os pobres que desejavam uma revolução.

Análise da obra Capitães da Areia


Escrito em 1937, Capitães da Areia é uma obra do autor baiano Jorge Amado e faz parte da segunda fase do modernismo, quando a literatura passa a enfatizar e criticar questões sociais.

  

Escrito em terceira pessoa, a história de Capitães da Areia é uma análise das condições enfrentadas pelas crianças e jovens abandonadas nas ruas e que lutam para sobreviver. Na obra, são retratados como os justiceiros das suas próprias histórias. 

Tiram dos ricos para seu grupo pobre com divisão justa, lidam com suas infelicidades, não questionam o passado, mas vez ou outra não entendem por que sofrem como homens sendo apenas crianças. 

Jorge Amado fazia parte do Partido Comunista Brasileiro (PCB), refletido no contexto da sua obra. Porém, Capitães de Areia foi escrito durante a ditadura militar, o que rendeu ao autor uma perseguição militar.

Seu livro foi queimado em praça pública e teve a comercialização proibida por ser considerado nocivo a sociedade. O caráter de denuncia social era um enfrentamento não permitido pelo estado.

A história ainda é contemporânea, pois ainda hoje o abandono, a pobreza, a falta de assistência e de políticas públicas eficientes fazem parte da realidade dos inúmeros jovens que vivem nas ruas do país

O autor mais adaptado para o cinema, teatro e televisão

Principais personagens de Capitães da Areia


Pedro Bala: Loiro, 15 anos, nunca soube de sua mãe. Tinha atitude líder, trazia nos olhos e na voz a autoridade de chefe. Justo e sábio, segue os caminhos do seu pai e acredita que sua luta pelos pobres não é em vão.

Dora: 13 anos, menina do sorriso fácil. Se torna mãe, irmã e noiva dos Capitães da Areia. Luta como um menino. 

João Grande: 13 anos, o mais alto do bando, e o mais forte também. Negro de carapinha baixa e músculos retesados. Era o braço direito de Pedro, entrou para o grupo aos nove anos quando seu pai, carroceiro, foi atropelado por um caminhão enquanto tentava desviar o cavalo. Não era inteligente, mas tinha força e estava disposto a qualquer briga.

João José, o Professor: Franzino, magro e triste, cabelo moreno caindo sobre os olhos apertados de míope. Apelidado por ter aprendido, em um livro furtado a fazer mágicas com lenços níqueis. Gostava de saber coisas e ganhará respeito por contar histórias inventadas ao grupo.

Sem-Pernas: Falava alto e ria muito. Coxo, era o espião do grupo, pois sabia se meter na casa de uma família se passando por um bom menino perdido dos pais na agressiva cidade. Amava unicamente seu ódio.

Gato: 16 anos, conhecia os mistérios do sexo. Considerado o mais bonito do bando. Sobrevive através da sua malandragem. 

Boa vida: Sambista, malandro e de bom coração.

Pirulito: Garoto muito religioso. Peca pela sua necessidade de sobrevivência.

Padre José Pedro: Religioso que presta assistência as Capitães.

Volta Seca: Admira Lampião, o considera seu padrinho, e sonha em fazer parte do bando de cangaceiros.

Filme Capitães da Areia


Inspirado na obra de Jorge Amado, o filme Capitães de Areia traz as aventuras dos meninos de rua de Salvador. Lançado em 2011, tem direção de Cecília Amado, neta do autor.

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Autor: Jorge Amado
Primeira Publicação: 1937
Gênero: Literatura Brasileira, Romance, Drama
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