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O Cortiço

Postado por Adriele Oliveira em 27/08/2025 e atualizado pela última vez em 27/08/2025
A obra “O Cortiço” tem início com a descrição da “herança” deixada para João Romão pelo patrão, um vendedor para o qual ele trabalhou dos treze aos vinte e cinco anos. 

Como pagamento pelos salários atrasados, Romão recebeu a venda, com tudo que estava dentro, e mais um conto e quinhentos em dinheiro. João Romão almejava enriquecer e não media esforços para isso, trabalhava incessantemente e se colocava nas mais duras privações. 

"Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha Bertoleza."

Romance naturalista que denuncia a exploração e as desigualdades nos cortiços cariocas no século XIX.

Bertoleza: trabalho, sonho de liberdade e a traição de João Romão


Bertoleza era uma crioula muito trabalhadora. Tinha trinta anos, era escrava de um velho cego, residente em Juiz de Fora, e amiga de um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade. 

"Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e iscas de fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria."

Após a morte do português, amigo de Bertoleza, João Romão se tornou seu caixa, procurador e conselheiro. O vendeiro era o responsável pela administração do dinheiro que a negra guardava para comprar sua alforria.

João também propôs que morassem juntos e Bertoleza concordou, gostava de associar-se com portugueses, pois procurava se envolver com homens que considerava de uma raça superior a sua. 

"João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao meio paralelamente à rua, sendo a parte da frente destinada à quitanda e a do fundo para um dormitório que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza."

João gastou as economias da escrava para comprar o terreno. Para disfarçar seu golpe, sumiu por uma semana e retornou trazendo um documento que afirmava ser a carta de alforria. Entretanto, a carta de liberdade era obra do próprio João Romão.

A ascensão de João Romão: do cortiço à ambição pela elite


Daí começa a saga de João Romão rumo ao enriquecimento. Todo dinheiro que rendia a sua venda, mais a quitanda, ia direto para a caixinha econômica. Um ano depois, não perdeu tempo e arrematou as terras situadas ao fundo da taverna. Construir três casinhas de porta e janela que tornou-se o ponto de partida do grande cortiço de São Romão

“Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua bodega; e, à proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e o número de moradores.”

Com sua obsessão pelo trabalho, a exploração de seus empregados, e da sua amante Bertoleza, e os furtos que praticava em sua venda, João Romão conseguiu comprar boa parte da pedreira, a qual muito cobiçará, e aumentar seu número de bens. O cortiço já comportava 95 casinhas e tinha até placa “Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para lavadeiras”.

Então surge Miranda, negociante de tecidos e vizinho de prédio de João, que deseja comprar terras para aumentar seu quintal. Porém as terras pertencem ao vendeiro, que se recusa a negociá-las. Houve um rompimento temporário na relação dos dois. Miranda acumulava inveja de João Romão devido ao crescimento do seu patrimônio, três vezes mais rico que ele, e que não precisou casar-se com a filha de ninguém, e também não levou nenhum chifre, para enriquecer.

Mas logo os dois vizinhos vão percebendo interesses em comum. Miranda tinha acesso à alta sociedade, recebeu do governo português o título de Barão do Freixal, posição almejada por João Romão.

Romão não queria apenas ganhar dinheiro, também desejava ostentar uma posição social. Queria fazer parte do meio ao qual não pertencia, ir a bailes e teatros, usar roupas finas, precisava habituar-se ao modo de viver da burguesia.

Por outro lado, Miranda apreciava a fortuna do vizinho já que vivia as custas do dinheiro da esposa, Dona Estela. Então uma aliança se forma, e para consolidá-la, planejaram um casamento entre João Romão e Zulmira, filha de Miranda e Estela.

“Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse jantar à casa do Miranda. Iam juntos ao teatro. João Romão dava o braço à Zulmira, e, procurando galanteá-la e mais ao resto da família, desfazia-se em obséquios brutais e dispendiosos, com uma franqueza exagerada que não olhava gastos.”

A queda de Bertoleza e o triunfo social de João Romão


Seguindo os novos padrões do qual desejava fazer parte, e para desbancar o cortiço concorrente, chamado "Cabeça-de-Gato" que havia se instalado próximo ao seu, João Romão promoveu uma enorme reforma no cortiço.

"João Romão conseguira meter o sobrado do vizinho no chinelo; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as cortinas e com a mobília nova impunha respeito. Foi abaixo aquele grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de cocheira, e a entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro, tendo entre ela e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo ao meio, de cimento, imitando pedra."

Por fim, para consolidar o casamento com Zulmira e firmar sua ascensão social, João Romão decide devolver a amante escrava aos donos. 

"Num relance de grande perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro."

Certo dia, ao servir café aos convidados de Romão, Bertoleza reconhece o filho do seu senhor e entende que foi enganada pelo homem a quem confiou sua vida. Prestes a ser capturada, em um ato de desespero, a negra esfaqueia-se, pondo fim em sua própria vida. 

Outras histórias do cortiço


A vida no cortiço era simples e dura. Lá também viviam Rita Baiana, Firmo, Jerônimo e Piedade. Jeronimo era um trabalhador honesto, casado com Piedade, que gozava de prestigio e consideração no cortiço devido a sua boa índole.

Sua força, dedicação e proatividade no trabalho ganhou a confiança de João Romão e rendeu-lhe a condição de gerente da pedreira. No entanto, Jerônimo passa a ser seduzido pela encantadora Rita Baiana que era amante de Firmo.

Rita baiana era uma mulata carismática e conhecida entre todos os moradores da habitação coletiva. Ao descobrir a relação do marido com a mulata, Piedade se tornou alcoólatra.

E em um processo de decadência física e moral, tomado pela paixão e pelo ciúme, Jerônimo assassina o namorado de Rita, abandona a esposa e vai viver com a amante.

A decadência também faz parte da história de Pombinha, uma moça culta, respeitada e muito querida por toda aquela gente do cortiço. Tentou manter sua honra dentro do casamento, mas já não suportava mais o marido.

Seduzida pela vida vivida por sua comadre Léonie, abandonou o marido e passou a viver como amante, era vista por toda a parte onde houvesse prazer no Rio de Janeiro. 

Sua mãe chorou de desgosto, e sem forças para o trabalho, aceitavou os ganhos da prostituição da filha para não morrer de fome.

Análise da obra “O Cortiço”


Publicada em 1890 por Aluísio Azevedo, “O Cortiço” é uma obra pertencente ao Naturalismo, movimento artístico conhecido por ser a radicalização do Realismo, distanciando-se da idealização romântica, trazendo um retrato fiel da realidade. 

No naturalismo ocorre a observação da realidade e das experiências para mostrar que o homem é um produto do próprio meio em que vive. Constitui-se também de teorias cientificas para compreender o universo. “O Cortiço” é uma obra que expõe o comportamento humano diante do ambiente ao qual o indivíduo está inserido através da trajetória dos personagens

A história de João Romão apresenta a visão naturalista das relações sociais, a ambição do personagem que representa os desejos da sociedade capitalista, o desejo de prosperar, de possuir bens e ser alguém considerado importante, torna-o um homem sem ligações afetivas.

desigualdade social e a exploração é uma temática muito exposta na obra, reforçada através da história de como surge o cortiço até as histórias de cada um dos moradores que ali chegaram. Trata-se de um retrato e denuncia de como viviam os moradores das estalagens e dos cortiços cariocas do final do século XIX.  

As transgressões comportamentais desenvolvidas no decorrer da obra são essenciais para compreender que o caráter original do indivíduo é alterado pelos seus instintos e pela busca de certos prazeres. 

Aluísio apresenta no livro um exemplo da má influência do meio sobre o homem, uma natureza poderosa e transformadora.


Personagens


João Romão: português ambicioso, dono do cortiço, da venda e da pedreira. Representa o capitalista explorador.

Bertoleza: escrava e quitandeira que batalhava para comprar sua alforria. Explorada e enganada pelo amante João Romão.

Miranda: negociante português que mantinha título de burguês, mas era sustentado pela esposa que o traia com seus clientes. Tinha convicção de não ser o pai de Zulmira.

Estela: Mulher levada, casada com Miranda e que cometia adultério.

Zulmira: Filha de Estela, menina pálida e fria que busca um pretendente. 

Jerônimo: português trabalhador e honesto, representa a disciplina profissional e a transformação do homem devido ao desejo carnal.

Rita Baiana: mulata sedutora que vive no cortiço, é amante de Firmo e mais tarde, envolve-se com o comprometido Jerônimo. 

Piedade: Esposa dedicada de Jerônimo que se entrega a bebida após ser traída. 

Firmo: mulato festeiro que se envolve com Rita Baiana e é assassinado por Jerônimo.

Pombinha: moça educada e de bom caráter que termina entregue à prostituição.

Curiosidade


Inspirado na obra de Aluísio Azevedo, “O Cortiço” foi adaptado para o cinema em 1978 com direção de direção de Francisco Ramalho Jr.


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Autor: Aluísio Azevedo
Primeira Publicação: 1890
Gênero: Literatura Brasileira, Romance, Ficção
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